Grato ao BE

António Bagão Félix
Público, 2016.02.27

A direcção do Bloco de Esquerda resolveu usar a figura de Jesus Cristo para ilustrar a sua satisfação por uma nova lei. Dispenso-me de comentar a legislação aprovada no Parlamento, pois não é aí que reside a polémica que se gerou em redor do destrambelhamento propagandístico da medida, por quem julga que não há limites democraticamente decentes à imaginação tornada pública.
Sou católico e, como tal, senti-me ofendido pela grosseira utilização da figura de Cristo, para mim não um profeta, mas Deus Encarnado. Manda pelo menos o dever de elegância, não utilizar meios gratuitamente deselegantes (a palavra mais diplomática que encontrei) para defender e publicitar uma causa. O respeito por um assunto que não é político, mas antes de convicções religiosas, é um dever elementar numa democracia madura. Assim como há que respeitar em absoluto quem tem outras convicções religiosas ou é agnóstico ou ateu. Não se trata pois de superioridade moral de alguém sobre alguém, trata-se do bom uso dessa palavra que enche a boca da política, mas que alguns gostam de usar em sentido único: tolerância. Tolerância e respeito. Como afirmava Jean Guitton, “pretender que se é neutro, que todas as opiniões são verdadeiras, é pressupor que são todas falsas. Eis o cepticismo: a cada um a sua verdade e todos estarão tranquilos”.
A Igreja Católica tem dado provas de sincera abertura, que alguns interpretam como permissividade e desdoutrinação. Por isso, se sentem à vontade para perjurar e abusar dos fundamentos e símbolos religiosos, o que não se fazem com outros credos. Quase apetece perguntar se o BE faria um cartaz igualmente tão soez e insidioso com, por exemplo, o profeta Maomé?
 Mas um ponto me satisfez. O BE, preto no branco, aceitou implicitamente a natureza divina de Cristo, pois no cartaz se diz ter dois pais. Sim, é também aquilo em que os católicos acreditam: o Pai Deus e o pai José, adoptivo. Só falta mesmo a terceira Pessoa trinitária: o Espírito Santo.
Por aqui me fico. Não quero dar mais para este peditório, nem quero contribuir para aumentar a “importância” de um cartaz tão pouco sensato e tão falho de inteligência.
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