Eutanásia, já; Nóstanásia, um dia

José Diogo Quintela
Correio da manhã 13.02.2016 00:30

Com estas taxas de juro, o Governo está a praticar uma espécie de suicídio assistido de Portugal. 

Como era de esperar, já apareceram pessoas a protestar por se trazer à discussão o tema da eutanásia quando ainda se está a resolver o do Orçamento do Estado. Como se os portugueses não conseguissem tratar de dois assuntos ao mesmo tempo. Para que é que serve ter cada vez mais mulheres na política, se não lhes aproveitarmos a capacidade para o multitasking? Além disso, a eutanásia tem tudo a ver com a situação actual do país. Com estas taxas de juro, as reprimendas europeias e a próxima reavaliação da única agência de rating que ainda nos sustenta, o Governo está a praticar uma espécie de suicídio assistido de Portugal. É tempo de debatermos a eutanásia. Como diziam no manifesto de notáveis, há que permitir que as pessoas morram com dignidade. E eu concordo. Já chega de mortes sem dignidade. Não há pior do que assistir a alguém a morrer indignamente. Um moribundo digno é bonito, asseado, penteado, anestesiado. Um moribundo indigno fica amarelo. Ou roxo. Ou verde. Enfim, uma qualquer cor desagradável. Suja os lençóis. Expectora bílis. Tem mau hálito. E faz barulhos irritantes enquanto respira com dificuldade para se manter vivo. As pessoas, quando se agarram à vida, fazem coisas muito indignas. Chegam a submeter-se a tratamentos caros e que aleijam imenso só para aguentarem mais um dia. Entre falecer com dignidade ou sobreviver sem ela, a escolha devia ser óbvia. Dignidade é dizer que não se quer incomodar a enfermeira que tem de mudar a arrastadeira 10 vezes por dia, nem dar chatices à lavandaria do Hospital, nem estragar fins-de-semana a familiares que já têm programas combinados e ficam deprimidos por visitar pessoas acamadas. Indignidade é só pensar em si e atrapalhar planos de herdeiros, obrigando-os a penar ao lado de uma cama de hospital. Mas legalizar a eutanásia, por si, não é resposta. Infelizmente, nem todos os doentes têm a presença de espírito necessária para optar pela eutanásia. Não estão em condições para tomar decisões lógicas e razoáveis. Basta ver que é gente que está tão baralhada que, sem protestar, aceita comida de hospital. Não estar na posse das suas capacidades faz com que o egoísmo prevaleça. No futuro, numa sociedade mais colectiva, menos individualista, a escolha será dividida entre quem parte e quem fica. Como na TAP: 50% para cada, o doente tem a gestão, mas os familiares ficam com o voto de qualidade. Talvez seja utópico, mas sonho com o dia em que a eutanásia passe a ser a nóstanásia. Agora, apesar de saber que há uma decisão honrada a tomar, eu assumo-me como cobardolas e, chegada a altura, vou preferir ser indigno. Já deixei expresso no meu testamento vital que, em caso de doença grave, todo o meu património é para gasóleo. Para abastecer o gerador que sustentará a máquina que me vai manter vivo, até encontrarem a cura.
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