Isabel do Carmo e a realidade alternativa

Alberto Gonçalves
DN 2016.02.28
E quando metade da população andava convencidíssima de que, em última instância, o PS nunca estabeleceria uma aliança com os partidos comunistas? Parece que foi há décadas. Mas foi há quatro ou cinco meses, e hoje já quase ninguém se lembra de que os socialistas nem sempre foram uma filial, ou o braço político, de PCP e BE. Em Fevereiro de 2016, a extrema-esquerda aprovou em coro o Orçamento do Estado e, para efeitos práticos, assinou a nossa candidatura de adesão ao Terceiro Mundo. O dr. Costa comemora o sucesso das "alternativas".
Toda a gente dissecou o sem dúvida relevante acontecimento, uns com natural horror face ao desastre iminente, outros com o entusiasmo próprio dos ingénuos, dos fanáticos ou dos beneficiados. Por mim, não nego que o, até ver, maior indicador da loucura a que descemos mereça cada comentário. Apenas prefiro, se me dão licença, procurar essa toleima colectiva nas pequeninas coisas. Um artigo de Isabel do Carmo no Público, por exemplo.
O artigo em questão intitula-se "Impostos e gordura" e, desde que o li na quarta-feira, vem sendo, para citar a péssima literatura, uma fonte de perpétua descoberta. Raramente tão poucas linhas chegaram para arrasar as teses alusivas à evolução da espécie. Aliás, a fundadora das Brigadas Revolucionárias é especialista em esbanjar teses que mostram o atraso do espécime (notaram o espectacular trocadilho?). Ei-las.
A dona Isabel começa por louvar os "estados sociais" europeus do pós-Segunda Guerra, que nos anos 1970 ela combatia a título gracioso e de modo explosivo. Infelizmente, depois vieram Thatcher, Reagan e as trevas, traduzidas em fenómenos inéditos como o "desemprego", a "pobreza" e a "ansiedade das pessoas". A própria União Europeia, imagine-se, aderiu à moda e, em lugar dos seres humanos, desatou a servir as "mercadorias" (açúcar mascavado, torradeiras e assim, presumo). Daqui, cerca de 1980, a dona Isabel salta repentinamente para o "governo austeritário", que nós supomos ser o do PSD--CDS e que ela tem a certeza de que "tirou aos pobres e remediados" para dar a "um poder mundial sem rosto". Isto em nome dos "juros da "dívida"" e para "diminuir o "défice"", conceitos que a dona Isabel põe entre aspas, talvez por duvidar da respectiva existência, talvez para conter a sua influência nefasta.
De súbito, novo salto, agora para o governo actual, que segundo a senhora é amigo dos funcionários públicos, dos "reformados e pensionistas" (evitem a risota, por favor), da "Ciência" e do "Ensino Superior", com maiúscula e tudo. Além disso, é danado para a banca, os automóveis, o álcool e o tabaco, desgraças que se Deus e o dr. Costa quiserem hão-de estar por um fio. Em matéria de políticas evangélicas, a dona Isabel só lamenta a falta de "taxação sobre as bebidas açucaradas", visto que a imbecilidade das massas não "vai lá com "educação"": "vai-se com legislação". E o espancamento dos infratores, sugiro.
O que importa, porém, é que o governo é generoso, e que a generosidade é tamanha que lhe vale a "perseguição de Bruxelas" e a perseguição dos mercados, os quais sobem os juros "só para assustar" (juro). Para cúmulo, "alguma comunicação social portuguesa" abusa da liberdade de expressão e "age como inimiga declarada do governo" em vez de responsavelmente o bajular. Bandidos!
A dona Isabel podia perfeitamente despedir-se nesta fase do texto, demonstrados que ficaram os seus conhecimentos de História, Economia, Moral e Psiquiatria (na óptica do utilizador). Não o faz, e ainda bem, dado ter acrescentado a teoria que é um autêntico salto quântico do pensamento (na óptica do não utilizador): "O neoliberalismo tem-se relacionado com o aumento da obesidade." Prova? Há gente a engordar nos EUA e na Inglaterra. Conclusão? "O neoliberalismo faz mal à saúde. Isto anda mesmo tudo ligado." Enfim é explicada a fome nos regimes que a dona Isabel aprecia: trata-se meramente de dieta, e das eficazes.
Inexplicável, excepto pelo caldo de alucinação e apatia em que Portugal se encontra, é que se confunda um razoável exercício humorístico com uma opinião habilitada. Principalmente se é a própria dona Isabel a insinuar o toque cómico, quer ao assinar o artigo enquanto "Médica, Professora maiúscula dela da Faculdade de Medicina de Lisboa", quer ao encabeçá-lo com uma fotografia onde se constata que a senhora é - faltam-me os eufemismos - gorda, quiçá vítima do "neoliberalismo". Duas hipóteses: ou a dona Isabel e o Público estão a brincar connosco ou o país está a brincar com a realidade. Aposto em ambas.
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