O PAPA E UMA AVOZINHA PORTUGUESA

Antonino Dias Facebook – 27-02-2016

Foi no dia 14 de dezembro. O Papa Francisco, na Eucaristia celebrada na Casa de Santa Marta, no Vaticano, debruçando-se sobre as leituras do dia, falou sobre a virtude da liberdade e da esperança no coração de Balaão e da hipocrisia dos doutores da lei, escravos da sua própria rigidez. «Neste ano da misericórdia - disse -, há estes dois caminhos». Há «quem tenha esperança na misericórdia de Deus e sabe que Deus é Pai», que «perdoa sempre e tudo», mas «há também aqueles que se refugiam na sua escravidão, na própria rigidez, e não sabem nada da misericórdia de Deus». E, a propósito, Francisco contou uma história que aconteceu com ele em 1992, e à qual se refere também, pelo menos duas vezes, no livro “O nome de Deus é Misericórdia”. Tinha chegado à diocese de Buenos Aires a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Houve uma grande celebração para os doentes num grande campo, com muita gente. O Papa, Bispo Auxiliar na altura, esteve ali, com muitos outros confessores, a atender pessoas que se desejavam confessar. Esteve desde o meio-dia até às seis da tarde, hora a que terminou a Eucaristia. Disse o Papa: “lembro-me muito bem desse episódio, que ficou bem marcado na minha memória. Parece que ainda a estou a ver. Era uma senhora idosa, pequena, diminuta, vestida de preto, como se vê em algumas aldeias do sul da Itália, na Galiza ou em Portugal”. Precisamente «no momento em que me levantava para ir celebrar um crisma noutro lugar, aproximou-se uma idosa, de oitenta anos, com os olhos que viam além, com olhos cheios de esperança». E eu disse-lhe: “Avó, a senhora vem para se confessar? Mas não tem pecados!”». Mas a senhora responde, rápida e convictamente: «Padre, todos temos!» – Bergoglio retorquiu: «Mas talvez o Senhor não os perdoe?». E a senhora, forte na sua esperança, continuou: «Deus perdoa tudo, porque se Deus não perdoasse tudo, o mundo não existiria!». Ora, «diante destas duas pessoas»: a livre com a sua esperança na misericórdia de Deus que é Pai, e a legalista, o escravo da própria rigidez, o Papa Francisco sugeriu que façamos nossa «a lição que esta idosa de oitenta anos – era portuguesa – me deu: Deus perdoa tudo, espera só que te aproximes». Este caminho de aproximação, de cada um de nós, pecadores, pode ser semelhante ao do filho pródigo da parábola. Ele, que tinha agido “fora de si”, mal, “volta a cair em si” (Lc 15, 17). Sentiu-se triste por ter abandonado a casa paterna e reconhece que, se agiu mal para com o pai que sempre o respeitou na sua liberdade, também reconhece que se ofendeu a si próprio. Toma consciência do pecado e faz um percurso de reaproximação, deseja voltar a casa e retomar a relação com o pai, mesmo que o caminho de regresso lhe traga alguma dificuldade e vergonha. O Pai é que nunca desiste do filho e sempre espreita à janela para ver se o vê aproximar-se de casa. Não para o humilhar, não para ajustar contas, não para lamentar o que ele fez, não para invadir a sua intimidade, mas para o abraçar, lhe restituir toda a sua dignidade e fazer festa: ele regressou! 
É no Sacramento da Reconciliação que, pela conversão, se faz a mais forte experiência desta alegria e abraço do Pai que faz festa connosco. O seu amor é mais forte que o pecado. Mas, como afirmava São João Paulo II, a conversão é, na verdade, “um ato interior de uma profundidade particular, no qual o homem não pode ser substituído pelos outros”. É necessário “que neste ato se pronuncie o próprio indivíduo, com toda a profundidade da sua consciência, com todo o sentido da sua culpabilidade e da sua confiança em Deus”, pois, como afirmava confiante aquela avozinha portuguesa, “Deus perdoa tudo”. A Igreja, ao observar fielmente a plurissecular prática da confissão individual, unida ao ato pessoal do arrependimento e ao propósito de se corrigir e satisfazer, defende o direito particular da pessoa se encontrar com Cristo crucificado que perdoa e, ao mesmo tempo, defende o direito de o próprio Cristo se encontrar com cada um de nós por Ele redimidos. Por meio do ministro do Sacramento da Reconciliação, o penitente ouve as palavras do perdão de Cristo: “São-te perdoados os teus pecados”, “Vai e doravante não tornes a pecar” (cf. RH20). Os confessores, tanto ou mais pecadores que o penitente, são sinal e instrumento, são humildes servidores da misericórdia infinita de Deus.
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