Infâmia

António Barreto
DN 2016.02.29
O Dr. Carlos Costa é um homem decente e um profissional experimentado. Já deu suficientes provas da sua dedicação à causa pública. Exerce as funções de governador num dos piores momentos da história do Banco de Portugal, da economia nacional e do sistema bancário. Para esse cargo, foi designado pelo primeiro-ministro de um partido e confirmado pelo primeiro-ministro de outro. Tanto quanto se sabe e é público, esteve isolado durante os períodos mais difíceis, como a bancarrota de 2011 e o acordo com a troika. Os governantes e outras entidades refugiaram-se então atrás da independência do Banco e da sua verdadeira tutela, o Banco Central Europeu. Além disso, o Banco de Portugal teve de enfrentar sozinho os casos do BES, do Banif, do Novo Banco e os restos do BPN. As autoridades portuguesas evitaram contactos com o Banco. Este colocou-se na difícil posição de charneira, entalado entre o governo nacional e o banco europeu. Ambos preferiram desaparecer do palco. Ambos deixaram que "o outro" ficasse com as responsabilidades, sobretudo se houvesse desastres, o que era praticamente inevitável.
Não tenho competência para avaliar a actuação técnica do governador Carlos Costa. Não sei se cometeu erros. Como não sei se as suas responsabilidades são superiores às do governo e às do BCE. Mas nada justifica o comportamento do primeiro-ministro, que acaba de o maltratar. Em público e covardemente, pois sabe que não haverá contra-ataque. O primeiro-ministro abriu uma desconfiança e uma quezília entre instituições, o que é inédito e grave. Portugal ficou a perder. O sistema bancário também. Não se percebe se o primeiro-ministro agiu assim porque quer nomear um camarada, porque quer agradar aos seus aliados mais desbocados ou simplesmente porque é imaturo. Mas lá que é infame, é! E a moda pode pegar. O Dr. João Soares, ministro da Cultura, teve atitude semelhante com o presidente do CCB.
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