“Eu gosto mais das pessoas depois de conhecer os seus pecados”

RR online 25 Fev, 2016 • Filipe d'Avillez

“A Confissão – Sacramento da Misericórdia” é o tema do segundo guião do Vaticano para melhor viver o Jubileu. Um sacramento que beneficia os leigos e que tem efeitos “inexplicáveis” para os padres que o administram.
O padre Bernardo Magalhães, de 39 anos, é um sacerdote da diocese de Lamego que tem responsabilidade sobre nove paróquias, mas, ainda assim, desloca-se praticamente todas as segundas-feiras a Lisboa para assegurar um turno de confissões na Igreja de São Nicolau, na Baixa.
Durante a conversa com a Renascença responde tranquilamente a todas as perguntas, excepto uma. Que efeitos é que tem para um padre estar muito tempo no confessionário? “Tem um efeito que eu não sei se saberei explicar... Tem o efeito de passar a ver a realidade, os seus irmãos, as pessoas com quem se cruza, com os olhos de Cristo. A não se escandalizar com nada, a não fazer juízos precipitados, a não deixar ninguém à margem, tem um efeito de o tornar misericordioso.”
“Se o sacerdote vive o seu ministério no sacramento da reconciliação com seriedade, é transformado pelo próprio Cristo. É impossível não o ser. E cresce muitíssimo o seu zelo apostólico, a sua vontade de ir ao encontro das pessoas, porque conhece mais profundamente o mistério da alma humana, os dramas interiores, o combate interior que cada ser humano traz consigo, e por isso deixa-se fascinar por este mistério que é a relação do homem com Deus e o mistério que é a redenção da humanidade. É praticamente impossível que não seja tocado por esta experiência.”
E conclui, depois de repetir que há muita coisa que não consegue pôr por palavras, dizendo: “Eu gosto muito mais das pessoas depois de conhecer os seus pecados”.
“A Confissão – Sacramento da Misericórdia” é o tema do segundo guião publicado pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização para viver melhor o Jubileu da Misericórdia. Um livro que não é extraordinariamente profundo, diz o sacerdote, mas que “dá muitas pistas para perceber a importância deste sacramento na vida cristã e sobretudo neste ano da Misericórdia”.
Bernardo Magalhães destaca os últimos dois capítulos. O penúltimo fala da fórmula que se usa na absolvição dos pecados no sacramento da penitência, “a meditação que faz é muito rica e ajuda muito a pensar no sentido do sacramento da penitência”. O último versa “sobre o sacramento da reconciliação na pastoral, que também é muito útil”.
Sacerdote que se confessa sabe confessar
Um dos objectivos, não só deste livro como do Jubileu em si, é levar as pessoas a tirarem mais proveito da confissão. Objectivos que não passam de boas intenções se não houver alguma aplicação no terreno.
“A primeira condição é que os sacerdotes respondam ao apelo do Papa de estarem mais disponíveis para a confissão e, portanto, serem mais fáceis de encontrar. Temos uma vida muito variada, muito agitada, somos poucos para muito trabalho, portanto este Jubileu serve em primeiro lugar para recentrar prioridades.”
“Este apelo do Papa é um apelo dirigido em primeiro lugar aos sacerdotes: ‘Tornem-se disponíveis’, e depois, fazer uma boa catequese sobre o sacramento da penitência, da reconciliação. Esta é uma das boas qualidades deste livro. É uma boa catequese sobre o sacramento da confissão”, diz.
Mas não basta estar disponível para confessar. Há que saber acolher o penitente de uma forma que o deixe com disposição para regressar. Isso, diz o padre, não se aprende no seminário, aprende-se sobretudo com a experiência de estar do outro lado do confessionário.
“Se o sacerdote se confessa, sabe confessar. Se um sacerdote sabe que é pecador, sabe como Deus o ama com o seu pecado e como Deus o quer transformar e por isso saberá também ser transformado pela misericórdia de Deus e ser instrumento da misericórdia de Deus. Não creio que haja muitas aulas a dar sobre isto, é uma experiência que se faz, que é a experiência da vida cristã e da conversão dos corações. Um sacerdote que queira confessar tem de se confessar.”
Graham Greene e missões de misericórdia
Esta não foi uma conversa fácil de agendar. Há quatro semanas que o padre Bernardo Magalhães anda pelo país a fazer assistência espiritual a projectos da Missão País, que envia jovens universitários para diferentes locais com objectivos evangélicos.
Quando lhe pedimos uma história pessoal sobre misericórdia, é com naturalidade que o padre se volta sobretudo para esta experiência tão marcante. “E eu tive o privilégio de testemunhar a misericórdia de Deus a agir nas pessoas que são servidas pelos missionários, pelos universitários que partem, o agradecimento, a elevação. As pessoas são elevadas na sua dignidade, encontram-se com a sua dignidade. Sejam os velhinhos, os deficientes, as pessoas sozinhas, de quem os missionários vão ao encontro.”
“Vejo pessoas que ficam realmente tocadas por esta bondade de Deus que os missionários levam, mas sobretudo tenho visto como é verdade que fazer o bem nos faz bons. Que ser misericordioso nos torna melhores”, diz.
E a conversa não termina sem que o padre Bernardo deixe uma sugestão cultural a propósito da misericórdia: um livro de Graham Greene, um escritor inglês convertido ao catolicismo e cuja vida espiritual “atribulada” aparece reflectida nos seus livros.
Neste caso trata-se da obra “O Poder e a Glória”, que retrata o México no auge das perseguições contra a Igreja. “É um livro sobre a vida de um sacerdote em plena crise de perseguição religiosa profunda, em que todos os sacerdotes tinham sido expulsos daquele Estado mexicano e restava apenas, em fuga, um sacerdote profundamente consciente da sua indignidade, que tinha traído a sua fé, que tinha traído a sua vocação, que se tinha tornado um alcoólico, que tinha pecado várias vezes contra o celibato. Era um homem que tinha consciência que, antes da perseguição se desencadear, tinha vivido em busca de honras e de um carreirismo torpe e inacreditável. Mas era o único padre presente naquele Estado.”
“E o livro é no fundo o debate interno deste homem, entre a sua indignidade e a sua vocação. Entre a sua indignidade pessoal e a misericórdia de Deus, que o chama a ser instrumento da misericórdia. É uma experiência tão universal para qualquer cristão, este conflito entre aquilo que Deus me chama a ser e aquilo que reconheço na minha vida como falha, como erro, como traição, e que no entanto sou chamado a caminhar sobre a palavra de Deus, sobre a vocação que Deus me dá”, conclui.
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