A democracia não é de esquerda

Paulo Baldaia
DN 2016.02.28

A maioria dos portugueses olha para o governo de Portugal como o governo de Portugal, não como o governo da esquerda ou da direita. Milhões de portugueses, seguramente a maioria, se contarmos com os que não votam, não é dos que nasceram para votar toda a vida PS, PSD ou outra coisa qualquer. Por isso, não aceitam o campeonato patrioteiro em que criticar um governo em início de funções é um crime de lesa-majestade. Já vivemos em democracia tempo suficiente para perceber que não há nada a ganhar quando se vive em uniões nacionais, em que a determinado momento deixamos os governos em paz, à espera de que eles mostrem o que valem, para depois estarmos juntos na crítica e exigir que cedam o lugar a outros, para voltarmos a ter a quem dar um estado de graça. Não há nada de antipatriótico, nem de antidemocrático em criticar quem está no poder e quem o apoia. Habituem-se.
Dito isto, alguém pensa que uma estratégia em que se aprova aquilo com que não se concorda e se aceita deixar para as calendas aquilo em que se acredita pode durar a legislatura inteira? Apoiar um governo ao mesmo tempo que se lhe faz oposição, como é o caso do Bloco e do PCP, pode parecer uma grande estratégia, mas não é. Não estar no governo, apoiando-o, é sempre empurrar com a barriga para a frente. Até ao momento em que as exigências europeias, com que o governo está comprometido, ponham verdadeiramente à prova o valor intrínseco desta coligação parlamentar. Por agora, o mal menor é o cimento que liga as esquerdas ao governo do PS, mas os incómodos desta coligação parlamentar são evidentes. E não vale a pena acusar a comunicação social de estar a criar factos políticos. Queixem-se antes do Bloco e do PCP, que já perceberam que têm de puxar pelas suas bandeiras, numa espécie de campeonato em que, mais do que influenciando o governo, ganha quem for capaz de causar mais embaraços ao PS.
Bloquistas a quererem refinanciar a dívida e comunistas a quererem nacionalizar o Novo Banco, com os socialistas a meterem na gaveta os dois temas, é a garantia de que a política continua a ser feita com muita hipocrisia, disfarçada de saudáveis divergências. A arte suprema chegou com o Bloco, o PCP e o PEV a aprovarem com críticas as contas do Estado dizendo, ipsis verbis, que "este Orçamento não é o nosso, é o do PS". Até quando poderão os partidos de esquerda enganar o seu eleitorado, dizendo que não têm nada a ver com aquilo que só eles são capazes de aprovar?
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