O país mais europeu da Europa

Saragoça da Matta
ionline 13 Dez 2013 - 05:00
Toda a normalização e higiene que emanam de Bruxelas pouco ou nada interferem no quotidiano e nas tradições do coração da velha EuropaO leitor que tenha ido recentemente a Madrid ou Barcelona terá tido oportunidade de visitar um dos vários mercados citadinos ali existentes, onde se vendem frutas, legumes, carne, peixe, doces, especiarias ou rebuçados, e onde também se pode almoçar, lanchar ou jantar: sejam tapas, sanduíches ou ostras com champanhe. Ali se encontram todos os produtos expostos, livremente em cima de bancas, sem qualquer protecção de armários, tecidos ou papel plastificado. Nada está protegido, isolado ou embalado. São mercados. E, como tal, tudo está "à mão". Adultos e crianças, sãos ou constipados, livremente espirram sobre os produtos em venda. Insectos pousam livremente sobre as vitualhas. E toda a poeira ambiente atinge, por definição, os comestíveis.
Se o leitor se sentar à mesa de restaurantes em Espanha, França ou Itália, encontrará sobre a mesa um estranho "equipamento", de seu nome "galheteiro", que serve para conter e servir azeite e vinagre. Tal como poderá utilizar saleiros e pimenteiros tradicionais. Aliás, os magníficos azeites e vinagres balsâmicos de todos esses países são assim servidos em toda a parte. Nada de unidoses plásticas.
Também em vários mercados do sul de França, o peixe fresco nos mercados é agarrado à mão, sem luvas. E até, em alguns casos, se vê a ser embrulhado em folhas de papel. Tal como o pão. Tantas vezes manuseado entre vendedor e comprador, sem sacos, luvas ou embalagens fechadas de permeio.
Se nos afastarmos mais, podemos encontrar, provar e comprar toda a sorte de enchidos expostos livremente ao ar frio da Alemanha. Não há armários, não há embalagens, está tudo ao alcance das mãos. Tal como nessas paragens se encontram bolos de pastelaria à venda "a granel" em cima de bancadas de madeira com uma folha de papel vegetal por baixo. Por baixo… que, por cima, nada.
Subindo para a Holanda ou para a Dinamarca, o mesmo se vê nos mercados de rua das cidades. Em toda a parte da Europa desenvolvida, do sul ao norte, os queijos estão em cestos não cobertos, a maioria das vezes sem celofane algum a protegê-los – também aqui sujeitos a todo o tipo de contaminação por insectos, bactérias, poeiras.
Nada disso se passa para cá de Elvas e Vilar Formoso. Cá, a higiene impera, bem como as coimas providencialmente impostas pelo direito de mera ordenação social rigorosamente tutelado por polícias municipais, nacionais e especiais. Apenas quando se sai do nosso rectângulo, indo por essa Europa adentro, nos apercebemos de que as determinações de Bruxelas imperam cá como em nenhuma outra parte do Velho Continente.
Tanto que me convenço seriamente de que Espanha, França, Itália e Alemanha, bem como os países do Benelux, não integrem plenamente a União Europeia. Devem ser membros "em trânsito" para a europeização. Toda a normalização e higiene que emanam de Bruxelas pouco ou nada interferem no quotidiano e nas tradições do coração da velha Europa. Já nós, não! Se o critério for o dos pontos vistos, Portugal é, afinal, o mais europeu dos países da Europa.

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