Celebrando a esperança democrática em Cracóvia

João Carlos Espada | Público | 09/12/2013

Na Europa central e oriental, bem como na África do Sul, os líderes moderados permitiram reacender a esperança democrática.
O seminário em Cracóvia, na Universidade Jagiellonian, fundada em 1364, decorreu na passada Terça-feira, antes da notícia da morte de Nelson Mandela. Mas Mandela foi citado enfaticamente, juntamente com outros grandes nomes da transição pacífica à democracia na Europa central e de Leste, entre os quais Lech Walesa, Vaclav Havel, Bronislaw Geremek e alguns outros.
O que une essas grandes figuras é a comum recusa da vingança em política e o comum empenhamento no ideal da democracia constitucional. São ideais hoje fáceis de elogiar em relação ao passado, mas nem sempre são aplicados no presente por muitos dos que os elogiam. E, na altura em que Mandela, Walesa, Havel ou Geremek recusaram a política de vingança, essa recusa não era consensual.
Muita gente citou na altura os tremendos e reais sofrimentos das vítimas do comunismo ou do apartheid para reivindicar uma política de perseguição sistemática contra todos os que tivessem tido alguma ligação aos regimes anteriores. O mesmo aconteceu entre nós, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, com a política de saneamentos em massa e a insistente referência àdicotomia "Fascismo ou Revolução".
Mandela, Walesa, Havel e Geremek recusaram esse apelo dicotómico –que, no caso deles, poderia ser traduzido por "Apartheid ou Revolução" ou por "Comunismo ou Revolução". Nessa recusa das "infelizes dicotomias", como lhes chamou Ralf Dahrendorf, residiu a sua corajosa opção pela democracia.
Dahrendorf foi também amplamente citado no seminário de Cracóvia. Tendo adoptado a cidadania britânica, manteve a cidadania alemã e os laços com a vida intelectual e política com o seu país de origem. No seminário de homenagem aos seus oitenta anos, em Oxford, em 2009, Habermas e Fritz Stern estiveram presentes e participaram activamente na reflexão sobre os factores que terão conduzido ao colapso da democracia na década de 1930.
Dahrendorf e Stern concordavam em apontar um factor fundamental: a quebra de uma cultura de equilíbrio ("equipoise") na Europa central e oriental. Radicalismos rivais, evoluindo rapidamente para fundamentalismos rivais – o nazismo e o comunismo – esvaziaram progressivamente a praça pública da democracia.
A política desses fundamentalismos rivais assentava na recusa frontal da cultura de equilíbrio inerente à democracia. Esta noção de equilíbrio era associada pelo nazismo e pelo comunismo àquilo que designavam por decadência burguesa e capitalista, por eles sobretudo atribuída ao chamado capitalismo judaico-anglo-saxónico. Esta misteriosa entidade era então acusada de contaminar os elevados ideais – de uma cultura trágica e heróica, no caso do nazismo, e de uma cultura colectivista e igualitária, no caso do comunismo – com o vírus personalista da ambição melhorista individual.
Associada a esta revolta fundamentalista do nazismo e do comunismo estava uma comum ideologia cientista e um profundo desprezo pelos mandamentos de compaixão e misericórdia da mundivisão cristã. Esta era acusada também de cumplicidade com o mundo decadente e burguês, um mundo que pertenceria a um passado conservador e contrário à nova era da técnica científica.
Este cientismo pagão revestia-se de diferentes modalidades. No caso do nazismo, assentava basicamente no culto da eugenia racista e no desprezo brutal por todos os comportamentos que parecessem débeis, frágeis ou desviantes. No caso do comunismo, tratava-se da chamada ciência da história, uma superstição teleológica que assegurava aos iniciados a chave do desenvolvimento futuro das sociedades – e, com ela, a legitimidade "científica" para literalmente varrerem tudo o que se lhes opusesse.
Em nome destes fanatismos rivais, nazismo e comunismo destruíram a democracia na Europa central na década de 1930. De acordo com Timothy Snyder, os nazis mataram deliberadamente 11 milhões de não-combatentes, dos quais cerca de 5,4 milhões de judeus –2,6 milhões a tiro, 2,8 milhões em câmaras de gás. Para os soviéticos, no período de Staline, os números de não-combatentes deliberadamente assassinados ascendem de seis a nove milhões.
A brutalidade destes números evidencia o premonitório alerta lançado no século XIX pelo grande historiador britânico, Lord Macaulay, quando anteviu as consequências de uma eventual erosão do horizonte judaico-cristão de uma civilização dominada exclusivamente pela técnica: "a aterradora ameaça de uma civilização técnica destituída de misericórdia".
No seminário de Cracóvia, na semana passada, recordámos estas palavras de Macaulay, bem como aqueles que, no final do século passado, recusaram a armadilha dos fanatismos rivais e a sedução das políticas de vingança. Na Europa central e oriental, bem como na África do Sul, esses líderes moderados permitiram reacender a esperança democrática. Possamos nós honrar essa esperança.

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