Nostalgia dos tempos que nunca foram

Ionline, 2013-12-21
Isabel Stilwell
O parto de uma adolescente num estábulo e um bebé deitado em palhinhas deixariam histéricos a Inspeção de Saúde. E bem

Passamos a vida a dizer que "dantes as coisas não eram assim", numa nostalgia pelos tempos que nunca foram. Mesmo aqueles que aparentemente têm memória e estudos, mesmo os mais novos que não tinham idade para saudosismos, conversam entre si que "dantes" não havia stress, que "dantes" é que a comida era boa, que "dantes" é que as famílias eram unidas e os pais estavam em casa, que "dantes" é que as crianças eram felizes e brincavam ao ar livre. Aparentemente, e indiferentes a toda a evidência, acreditam que o mundo vai para pior, e que com o aquecimento global a ajudar deixámos o Paraíso, para arder no Inferno. Ou por aí.
Pobre de quem tenta argumentar que o mundo, pelo menos neste canto ocidental onde tivemos a sorte de nascer, é mais justo, mais seguro, mais humano, e decididamente mais atento às crianças, em grande parte graças aos valores judaico-cristãos, ultimamente com uma revisão em baixa.
Mas em vésperas de dia de Natal, porque não experimenta a minha tese de optimismo, partindo do Presépio? Olhe bem para a gruta, e visualize, como está na moda dizer-se, uma adolescente grávida, montada num burro, de estalagem em estalagem, em busca de um quartinho para dar à luz. Depois imagine que o estábulo que finalmente lhe cederam é sujeito a uma visita-surpresa da Inspecção Geral de Saúde, e os técnicos se deparam com um recém-nascido aquecido por um burro e uma vaca, a receber visita de sem--abrigos andrajosos. Testes de Apgar nem vê-los. Quanto à mãe, lá está serena, nem sombra de obstetra ou sequer de uma parteira, embora se presuma que o dedicado S. José, tenha assistido ao parto, num advento de uma modernidade que levou dois mil anos a chegar às maternidades.
Maria tem sorte, muita sorte de estar viva. Se não quer recuar ao ano zero, então que tal o início do século xx, tão recente como isso, quando uma em cada cem mães morriam de parto, e metade das crianças morriam antes dos cinco anos? Isso mesmo, 50 em cada 100, o que significava que para ficar com quatro filhos, uma mãe teria de dar à luz oito vezes - aliás, quando dizemos que nascem poucas crianças, esquecemo-nos que por estas contas o resultado final em termos de renovação da população, não seria muito diferente. E que feliz teria ficado Jesus se tivesse nascido agora na nossa Belém (apesar dos actuais inquilinos), num país onde à taxa de mortalidade infantil é de 3.4 óbitos por cada mil nados-vivos, a sexta melhor taxa da Europa.
E quando olhar com outros olhos para o Presépio, lembre-se ainda, que o Menino Jesus não teve certamente o colo da avó Ana, nem as cavalitas de um avô, coisa que os seus netos terão durante muitos e longos anos. E já agora, não resisto a lembrar, que por muito maus que alguns dos nossos políticos sejam, já não andam como Herodes, a cortar a cabeça aos bebés portugueses, por medo de que entre eles esteja o novo boy para o seu job.
Tudo isto, porque há dois mil anos os pastores e os reis se ajoelharam perante um recém-nascido, e veneraram a sua mãe, colocando as crianças e as mulheres em toda a sua dignidade e no centro da História. Cabe-nos agora deixar os queixumes, e lutar para que o 25 de Dezembro chegue a tantos lugares neste planeta onde o Natal ainda não aconteceu.

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