Distracções

José Ferreira Machado
Sol, 10 de Dezembro, 2013
O excesso de informação enche de fumo os nossos dias. A quantidade e a frequência das 'novidades' tornam difícil separar o 'sinal' do 'ruído', ou seja, tornam difícil destrinçar o que é importante e o que é um mero fait divers. Não admira, pois, - mas não desculpa -, que nesta voragem me tenha passado completamente despercebida a existência da revista da Fundação Francisco Manuel dos Santos com o título XXI, Ter Opinião. É uma revista de periodicidade anual, dirigida por José Manuel Fernandes, da qual foi publicado recentemente o número 3 (para 2014).
A minha distracção imperdoável é que dos dois primeiros não dei notícia. A periodicidade anual sugere precisamente o oposto do remoinho informativo que nos afoga: os temas são pesados, reflectidos e com a importância que só o tempo e a distância conferem.
O volume de 2014 da revista tem muitos artigos interessantes (entre ao quais um, estupendo, de D. Manuel Clemente sobre o ser europeu). Contudo, dada a natureza económica desta coluna destaco e recomendo dois. O de Vítor Bento, que discute como a memória da hiperinflação alemã dos anos 20 do século passado continua presente e molda a intransigência germânica relativamente à inflação e as suas atitudes face condução da política monetária (e económica) na UE.
Sempre me causou alguma perplexidade que a grande depressão que se seguiu ao fim da hiperinflação (a mais profunda a seguir à americana) tivesse calado menos fundo na memória colectiva do que a experiência inflacionista. Lendo o artigo, percebe-se como a inflação devastou a poupança da classe média e das classes trabalhadoras, dos reformados e pensionistas, lançando na pobreza uma grande fatia da população.
Uma devastação mais profunda e sobretudo mais generalizada que a do desemprego do período da grande depressão.
Fernando Adão da Fonseca escreve sobre a reforma do Estado Social na Suécia iniciada nos anos 90. Aqui o principal ensinamento para Portugal é como 'Estado Social' e monopólio do sector público da produção de serviços de saúde e de educação não são sinónimos. É possível conciliar o acesso universal com a concorrência entre o sector público e privado no fornecimento de serviços num quadro de livre escolha pelos utentes. E essa concorrência, mais do que poupar nos gastos, conduz a importantes ganhos de eficiência e de qualidade de prestações.

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