A (des)graça do Natal

Gonçalo Portocarrero de Almada
ionline 21 Dez 2013
O Natal de há dois mil anos foi um desastre, que nada tem a ver com a festa bonitinha que comercialmente nos querem impingir
Não nos deixemos iludir pela publicidade: o Natal foi um desastre! Sim, uma vergonha! Não foi, de modo algum, aquela festa bonitinha que comercialmente nos querem impingir. Se há algum acontecimento histórico que tem sido falsificado na sua realidade factual esse é, sem dúvida, o nascimento de Cristo, há mais de dois mil anos.
Os habitantes de Belém não foram nada acolhedores. Apesar da hospitalidade ser tão prezada entre os orientais, não houve quem desse guarida à Mãe de Jesus, ninguém que se compadecesse daquela jovem mulher prestes a dar à luz o seu Filho. Não há uma única porta que se abra aos rogos de Maria, às súplicas de José, aos vagidos, ainda imperceptíveis, do Menino que está para nascer. Ninguém se comove, nem sequer na hospedaria, onde era suposto haver algum recanto onde pudessem descansar, mas onde também não há lugar para eles.
Também não parece que os parentes de Maria se tenham portado da melhor forma. Por ocasião do nascimento de João Baptista, o filho de Zacarias e de Isabel, Maria fez uma longa viagem para acompanhar esta sua prima no final da sua gravidez e durante o nascimento do seu filho. Mas agora, quando é o Filho de Maria que está para nascer, Isabel e Zacarias não estão a seu lado, apesar de saberem que vai ser dado à luz o tão desejado Messias.
Se é para Belém de Judá que se dirige o jovem casal, é precisamente porque José era da casa e família de David, aí sediada. Contudo, nenhum dos seus familiares – e muitos deveria haver na zona – o recebe em sua casa, nem apoia a sua mulher, naquela dramática circunstância. Por isso, o Filho de David nasce num palheiro, tal qual um sem-abrigo.
Também a prestação de Deus foi, pelo menos, discutível. Permitiu um édito de César Augusto, que impôs o recenseamento de cada família, no lugar de onde era oriunda a sua estirpe. E foi esta ordem imperial que obrigou à deslocação de Maria e José, nas vésperas do nascimento de Jesus. Será que Deus, na sua omnipotente providência, não poderia ter evitado tão infeliz coincidência? Afinal, que mal teria vindo ao mundo se o édito tivesse sido um pouco antes, ou o nascimento ligeiramente mais tarde, de forma a que os dois factos não ocorressem em datas tão próximas?!
Não satisfeito com esta surpreendente falta de previsão, Deus permite a existência de Herodes que, temeroso de que o recém-nascido possa fazer perigar o seu trono, obriga-O, bem como a seus pais, a uma longa e penosa viagem para o Egipto, onde se exilam e onde não consta que aquela desventurada família tivesse morada ou meios de subsistência. Como estrangeiros, estariam equiparados aos escravos e, como tais, teriam que aceitar todas as humilhações e os piores trabalhos.
Mas as desgraças natalícias não ficam por aí. Quando, depois, o rei Herodes se dá conta de que aqueles que o deveriam levar até ao verdadeiro Rei dos Judeus o não fazem, decide, em desespero de causa, mandar assassinar todas as crianças, nascidas em Belém, com menos de dois anos de idade.
Que desastre, o Natal! E é este horror, tingido com o sangue dos inocentes e a imensa dor das suas famílias, que a Igreja e o mundo insistem em recordar?! É esta desgraça que, festivamente, celebramos todos os anos, no dia 25 de Dezembro?! Que sentido tem a recordação de um tão infeliz acontecimento, que melhor seria esquecer do que comemorar?!
Sim, no Natal tudo correu mal. Mas essas são apenas as linhas tortas pelas quais o Pai do Céu escreve direito, porque «todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28). Com efeito, mais importante do que todas essas desgraças é a graça que Deus nos enviou, abençoando-nos no amor de Maria e José e, sobretudo, entregando-Se-nos no sorriso de um bebé.
Feliz Natal!

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