O sentido de uma renúncia Quaresmal


Fr. Filipe Rodrigues, op.

Todos os anos os católicos são chamados a viver interior e exteriormente um tempo de penitência e de conversão. A esse tempo damos o nome de Quaresma, palavra que nos recorda o número quarenta e o simbolismo que tem na Bíblia, como os dias que Jesus passou no deserto antes de iniciar a sua vida pública.
Porque é um tempo especial – a Igreja chama até o tempo santo da Quaresma – os católicos vivem-no à luz do Evangelho, aceitando e assumindo as três práticas que Jesus viveu e aconselhou: a oração, o jejum e a esmola.
Também todos os anos os bispos de cada diocese pedem que se faça a recolha da "renúncia quaresmal" para a entregar a uma ou mais instituições que precisem e sejam contributo para o bem-estar social.
O que é a renúncia quaresmal? É o dinheiro que cada católico junta durante a quaresma, dinheiro que é fruto das renúncias que foi fazendo, em espírito de oração e de conversão. Não se trata tanto de uma esmola; normalmente as esmolas são o que podemos dar do que temos. Este dinheiro tem uma origem diferente: é o resultado do jejum que fiz, do que iria gastar em coisas supérfluas e que podem ser melhor canalizadas.
O nosso bispo destinou a renúncia quaresmal deste ano para a Ajuda de Berço. É a segunda vez que acontece na diocese de Lisboa. Significa que os católicos desta diocese irão entregar-nos, na Páscoa, o fruto das suas renúncias. Não é uma campanha de recolha de fundos, não é uma esmola. Neste dinheiro está o sacrifício das pessoas e também a alegria da partilha. Nós, que contactamos mais de perto com a Ajuda de Berço, quer sejamos funcionários quer voluntários, amigos ou simpatizantes, devemos acolher com alegria este dinheiro. Por detrás dele, como digo, está o resultado da austeridade que pautou a caminhada espiritual. Certamente que houve outras mudanças na vida das pessoas: muitas, além de jejuarem na alimentação jejuaram também nos modos de falar e nos modos de pensar. Se calhar umas partilharam do que lhes sobrava mas outras partilharam do que tinham, muitas vezes privando-se de alguma coisa que, embora não lhe fosse essencial, poderia vir a trazer conforto.
É uma quaresma importante. E que o gesto de solidariedade nos leve também, a cada um de nós a perceber o que significa a gratuidade. Numa sociedade em que tudo vale e tudo é pago, um gesto de gratuidade e de partilha faz toda a diferença.
Durante a Quaresma, cada um de nós faça este exercício prático quando for comprar alguma coisa: será que isto é mesmo importante para a minha sobrevivência? E se renunciasse a isto e desse o dinheiro para quem mais precisa?
Boa quaresma.

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