Henrique Leitão: Entrevista ao vencedor do prémio Pessoa 2014

Expresso, 2014.12.20
Entrevista Virgílio Azevedo Fotografias Luís Barra

A historiografia portuguesa tem de ser reescrita, defende o Prémio Pessoa 2014, porque a História da Ciência feita em Portugal tem sido contada de uma forma miserabilista. Henrique Leitão, o físico teórico que se tornou historiador, diz que o desenvolvimento científico português na época das Descobertas, nos séculos XV e XVI, foi fundamental para a a revolução científica europeia do século XVII. E o seu trabalho de investigação tem provado cada vez mais esta realidade incontornável

Henrique Leitão é investigador principal e um dos fundadores do Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia da Universidade de Lisboa, além de professor da Faculdade de Ciências. Eclético, combina uma sólida formação científica com um profundo conhecimento humanista. Autor de dezenas de livros e artigos, a sua grande paixão é o estudo da obra do matemático Pedro Nunes. Foi curador em 2013 da exposição "360° — Ciência Descoberta" na Fundação Gulbenkian, que teve uma grande projeção nacional e internacional, porque deu a conhecer ao público a importância da ciência feita na época das Descobertas na Península Ibérica para o desenvolvimento científico mundial.
O que o fascina mais na obra de Pedro Nunes? 
O contacto com um matemático de altíssimo nível, muito criativo, que me causou tanta perplexidade que me levou a decidir investigá-lo. E embora nunca tivesse sido um desconhecido, a sua obra não estava estudada, sobretudo os spetos mais técnicos, que muito inham marcado a ciência europeia. Foi esses que estudei durante dez anos e daí ter coordenado a comissão científica responsável pela publicação das suas obras completas, promovida pela Academia das Ciências de Lisboa e pela Fundação Gulbenkian. Já estão editados seis volumes e faltam apenas os manuscritos e documentos biográficos.
Como descobriu o papel da matemática de Pedro Nunes no método de projeção cilíndrica da Terra de Mercator, que está na origem da cartografia moderna? 
A ideia de que há uma conexão entre Pedro Nunes e Mercator não é original. A certa altura conheci Joaquim Alves Gaspar, um extraordinário especialista de técnicas cartométricas para o estudo de cartas antigas, e começámos a analisar todas as soluções antigas, tendo rapidamente surgido a ideia de que havia uma explicação nova. Hoje está aceite na comunidade académica como a melhor explicação para o método usado por Mercator e liga-se diretamente a Pedro Nunes, o que muitas pessoas suspeitavam, mas nunca tinham provado numa base sólida. Mostrámos que Mercator usou um instrumento matemático chamado Tabelas de Rumos para fazer a sua projeção cilíndrica do globo terrestre. Ora as Tabelas de Rumos foram concebidas e decorreram de uma ideia de Pedro Nunes. São tabelas numéricas que representam as linhas de rumo no mar, ou curvas loxodrómicas (latitudes e longitudes), e começaram a fazer-se em Portugal nas décadas de 30 e 40 do século XVI. Depois espalharam-se por toda a Europa.
Porque são tão importantes os dois artigos que publicou com Joaquim Alves Gaspar em 2013 e 2014 na revista científica "Imago Mundi"? 
Bom, é a mais importante revista internacional de história da cartografia, e os artigos esclarecem pela primeira vez o uso das Tabelas de Rumos por Mercator. Por outro lado, mostram algo que tentamos dizer há muito tempo: que ideias concebidas pela primeira vez em Portugal foram muito rapidamente conhecidas em toda a Europa. Isto obriga a refletir sobre toda a história científica portuguesa no período das Descobertas. No passado cometeu-se muitas vezes um erro metodológico entre os historiadores portugueses. Quando estes quiseram avaliar a qualidade da ciência que se tinha feito em Portugal, porque isso era importante para a noção de modernidade, não estudaram os cientistas de outros séculos, mas antes filósofos, literatos e humanistas. E daí o que surgiu foi uma imagem atrasada, como é óbvio. Um exemplo: o heliocentrismo. Em vez de se fazer uma inspeção detalhada do trabalho dos astrónomos e matemáticos, foi-se olhar para textos de filosofia natural, que demoraram séculos até incorporar ideias novas como esta. Se tivessem investigado os cientistas portugueses que sabiam destes assuntos estava lá tudo. Os debates europeus em torno das questões científicas mais modernas passaram todos por Portugal.
A que se deve o facto deste erro ter sido cometido sistematicamente pelos historiadores portugueses? 
Porque para analisar o progresso na matemática, física, astronomia ou química é preciso ter conhecimentos técnicos nestas áreas. E os historiadores não os tinham. É uma situação paradoxal. Em grande medida, a imagem de atraso e de pouco interesse pela ciência na história portuguesa é apenas a tradução das limitações dos historiadores. A historiografia do século XIX, que marca um cânone interpretativo para a história de Portugal, não tinha a mínima competência para estudar aspetos técnicos sofisticados. E, no entanto, pronunciou-se sobre eles. Hoje Portugal tem de fazer o que todos os países desenvolvidos já perceberam: criar grupos de investigadores da História da Ciência, que fazem inspeções do passado em zonas muito técnicas, porque elas são cruciais. Newton é uma indústria no Reino Unido, Galileu é uma indústria em Itália, feita pelos melhores especialistas. É uma indústria porque está tanto em jogo na imagem dos países, na promoção e no estudo sério destes grandes nomes da ciência, que há um investimento claro nisso. Todos os países desenvolvidos perceberam que a sua imagem depende tanto da ideiaque transmitem enquanto nação de ciência, que têm núcleos de especialistas a estudar estas questões.
Como surgiu a sua ligação a Walter Alvarez, o famoso geólogo americano que propôs com o pai em 1980 da teoria de que os dinossauros foram extintos devido ao impacto de um asteroide?
Fui convidado pelo grupo de Estudos Portugueses da Universidade da Califórnia em Berkeley para falar numa conferência sobre a importância das navegações portuguesas antes do aparecimento da ciência moderna. Na assistência estava um senhor mais velho que tirava continuamente notas do que eu dizia. Quando a conferência acabou, veio ter comigo e disse-me: "Fiquei fascinado com a história que contou, porque ando há dez anos a pensar no mesmo. Você não se importava de falarmos sobre este tema e possivelmente publicarmos algum artigo científico?"Eu disse que sim, perguntei quem era ele e respondeu-me que era Walter Alvarez. Conhecia perfeitamente o nome, só não me lembrava da É provavelmente o geólogo vivo mais famoso do mundo e o pai, Luis Alvarez, foi Prémio Nobel da Física. Ele andava há dez anos a mostrar que o princípio da geologia como ciência, quando a Terra passou a ser tomada como um objeto, só sucedeu no século XVI em resultado das navegações portuguesas. Por causa das navegações de longa distância regulares (comerciais) um facto político, social e administrativo os portugueses recolheram dados de todo o tipo de grandezas físicas como correntes marítimas, ventos, magnetismo (através das bússolas), cartografia, costas, enfim, fenómenos naturais de todo o mundo. E compreenderam que há ciclos de ventos permanentes ou estáveis, linhas de costa com certas formas ou distribuição de magnetismo em todo o globo. Foi esta consciencialização que tornou a Terra um objeto de estudo.
O que acontecia antes? 
Até aí, como as pessoas na Idade Média viviam muito localmente, a Terra era uma abstração, porque só tinham experiências locais e o resto do mundo era desconhecido. Havia mineralogia, mas não havia geologia. Eu e alter Alvarez publicámos então dois artigos científicos em 2011 sobre este assunto dirigidos a um público de geólogos. E estamos a preparar um terceiro artigo dirigido a historiadores. Portanto, ideias muito centrais na formação da ciência moderna apareceram em Portugal e isso é muito claro para Alvarez.
A imagem de atraso e de pouco interesse pela ciência no nosso país no passado é apenas a tradução das limitações dos nossos historiadores. A historiografia do século XIX, que marcou um cânone interpretativo para a História de Portugal, não tinha a mínima competência para estudar aspetos técnicos sofisticados. No entanto, pronunciou-se sobre eles
Para a sua carreira, o geólogo americano foi um apoio de peso? 
Antes de mais, foi extraordinário trabalhar com Walter Alvarez. É uma pessoa inteligentíssima e cultíssima e aprendi imenso com ele, que tem um entusiasmo transbordante pelo trabalho, apesar dos seus 74 anos Aliás, o problema de fundo da nossa investigação é fácil de perceber. É crível que aquela que foi talvez a maior transformação política, social, administrativa, económica da Europa nos séculos XV e XVI, com a expansão marítima europeia (Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra), não tenha nada a ver com a revolução científica do século XVII? É muito difícilcreditar que não é. Agora, estabelecer exatamente a conexão entre os dois acontecimentos de uma forma bem estudada e fundamentada é um problema histórico difícil.
E os grandes nomes da ciência? 
Se temos uma História da Ciência reduzida apenas ao plano intelectual e aos grandes cientistas a história das ideias de Copérnico, Newton, etc. é muito difícil estabelecer qualquer nexo causal nestes factos. Mas a historiografia da ciência mudou muito e hoje é reconhecido por toda a gente que este não é o modo correto de a contar. A ciência é uma coisa muito mais ampla, que envolve a sociedade inteira.
A metodologia tem de ser diferente? 
Exatamente. Interessa o trabalho de artesãos, os desenvolvimentos tecnológicos à volta das indústrias, o modo como níveis menos educados da população participaram neste processo. Quando este novo ingrediente entrou na História da Ciência, de repente o olhar dos historiadores desviou-se para a Península Ibérica. Se a modernidade científica tem a ver com transformações que envolvem toda a sociedade, então não se pode deixar de fora o que se passou aqui.
É por isso que os grandes avanços na matemática no século XVI com Pedro Nunes, se devem também à contribuição de navegadores, pilotos e marinheiros portugueses anónimos?
Precisamente. Mas temos de perceber como isto pode ser profundo e decisivo. Vou dar um exemplo. A ideia de que magnetismo é uma propriedade distribuída por toda a Terrasurgiu pela primeira vez na História em Portugal. E foi o resultado, não de reflexões de eruditos, mas da prática quotidiana de pilotos no mar, homens de nível letrado baixo. Mas da sua prática resultou aquilo que é uma ideia conceptualmente sofisticadíssima: que há magnetismo espalhado por todo planeta. Quando vemos que níveis baixos de prática científica podem também gerar conceitos da maior importância para a ciência, de repente percebemos que temos de mudar tudo. Esta abordagem em nada diminui a importância dos grandes nomes na História da Ciência. Mas eles não são a História toda, o processo é muito mais complexo e faz entrar muito mais atores, parâmetros e circunstâncias. Portanto as metodologias históricas são muito diferentes.
Este processo não foi apenas de baixo para cima, isto é, houve também uma ação das elites de cima para baixo no sentido de aumentar a literacia científica de toda essa gente anónima? Absolutamente. Há um encontro, o que é uma ideia muito profunda, porque há algumas teses que interpretam o aparecimento da ciência moderna como resultado desse encontro entre os níveis altos eruditos e a prática artesanal técnica. Com um colaborador da minha equipa, o espanhol Antonio Sánchez, vamos publicar em breve dois artigos científicos sobre este tema.
Houve outras mudanças importantes que começaram na Península Ibérica? 
Sim, não só ao nível cognitivo mas ao nível organizativo. É em Portugal e Espanha que se registaram pela primeira vez os primeiros grandes fenómenos de acumulação de dados sobre o mundo natural a uma escala planetária, não só na cartografia mas também na botânica, medicina, zoologia, geologia, meteorologia, etc. E apareceram instituições que acabaram por gerir toda esta informação. O que sabemos é que depois todos os países europeus copiaram este modelo.
O grande público tem consciência desta visão sobre a História da Ciência em Portugal? 
Não, ainda não se apercebeu de toda esta realidade. É um processo que demora algum tempo, mas primeiro é preciso que os historiadores em geral vão tomando conhecimento destas mudanças, para que depois isto se traduza num modo diferente de contar a História ao público através do sistema de ensino. Mas entretanto podem-se fazer ações concretas, como eu fiz com a exposição "360Ciência Descoberta", na Fundação Gulbenkian em 2013.
Pedro Nunes foi um matemático de altíssimo nível e embora nunca tivesse sido um desconhecido, a sua obra não estava estudada, sobretudo as áreas mais técnicas, que tinham marcado a ciência europeia
E as quatro exposições que já organizou na Biblioteca Nacional em Lisboa? 
Têm sido mais específicas e correspondem a outra coisa muito importante: o que me fez mudar da Física Teórica para a História da Ciência na minha carreira. Quando comecei a estudar estes assuntos há uma série de anos, a partir de umabase documental, notei uma disparidade enorme entre o que os livros diziam sobre o passado científico português e aquilo que encontrava na documentação, sobretudo quando era ciência que tinha alguma exigência do ponto de vista técnico. Os livros tinham habitualmente esta forma: os relatos eram ou negativos ou muito tímidos sobre a prática científica em Portugal, mas eu não encontrava isso na documentação, encontrava factos muito interessantes, uma história muito mais rica. E esta disparidade fez-me logo notar que um dos problemas centrais da História da Ciência em Portugal, ainda hoje, é puramente documental. É preciso fazer um levantamento da documentação e o seu estudo técnico de maneira muito mais sofisticada e muito mais ampla do que foi feito até agora.
A História tem de ser reescrita?
Acabará inevitavelmente por ser, porque esta evidência documental é de tal modo imponente a que ficou por contar que acabará por ser conhecida e invadir todos os campos da História. Só que isto é de enorme importância, porque os historiadores associaram ciência a modernidade, desenvolvimento, progresso. E usaram a ciência como um indicador. Portanto, enquanto não se esclarecer a História da Ciência em Portugal, não entendemos de facto a nossa própria História, poapesar de ser um disciplina restrita e muito específica, tem um impacto enormefluencia imenso a imagem que temos sobre nós próprios. E esta imagem é algo deformada porque a História da Ciência não foi beeita. Por exemplo, a maior parte das descrições sobre o desenvolvimento da Matemática em Portugal começam por Pedro Nunes. Só que Pedro Nunes vem de uma história anterior que não se conhecia. Brevemente,vamos publicar as obras do grande matemático Francisco de Melo, que é da geração anterior a Pedro Nunes. E depois teremos de estudar outro matemático mais antigo, Álvaro Tomás, sobre o qual se fazem hoje teses de doutoramento na Alemanha. E antes dele havia um matemático português que estava em Paris, Rolando de Lisboa, com uma obra também interessante. Ou seja, quando o trabalho documental é feito, começamos a ver que a nossa História, no caso da Matemática, não é de um homem que vive no vácuo intelectual, Pedro Nunes, mas que opera numa tradição que parece muito bem definida pelo menos desde o século XV.

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