Tráfico de Seres Humanos e Grupo de Santa Marta

P. DUARTE DA CUNHA
Voz da Verdade, 2014.12.14

Quem diria que em pleno século XXI haveríamos de estar a falar de escravidão e de tráfico de pessoas? Mas é um facto, e os números são assustadores. Actualmente, em todo o mundo o negócio de escravos rivaliza com a droga e a venda de armas na disputa sobre qual faz circular mais dinheiro! Há milhares de pessoas obrigadas a trabalhar, sem liberdade e sem terem os direitos mínimos garantidos, vendidas por gente sem escrúpulos. 
São sobretudo mulheres, que são trazidas de um país para outro para serem usadas na prostituição e na pornografia. Mas também há tráfico de homens. Na Europa Ocidental há quem tenha a trabalhar nas suas quintas, às escondidas das autoridades, pessoas que vêm do leste da Europa, de África, da América do Sul ou de alguns países asiáticos. Vêm de situações terríveis e são-lhes feitas promessas que nunca se realizarão. Acabam a viver em contentores, sem o mínimo de higiene, sem salário e sob ameaça de morte se tentarem fugir.
Há um outro tipo de tráfico humano que tem que ver com o negócio de órgãos (rins ou fígado, por exemplo), onde as pessoas são mortas ou mutiladas para que os seus órgãos sejam transplantados em algum doente disponível a pagar uma fortuna. Associado a este negócio está o das chamadas "barrigas de aluguer". Por incrível que pareça, este comércio tem sido legalizado em alguns países. Como se a barriga de uma mulher fosse uma coisa que se aluga e a criança pudesse ser tratada como uma coisa que se fabrica algures! Tem-se visto em muitos casos que se vão tornando públicos, que é inevitável que à volta de uma coisa tão imoral acabe por surgir uma lógica de crime, de mentira, de exploração.
O Papa Francisco tem sido implacável contra o tráfico humano. Chamou-o já "crime contra a humanidade". Recentemente assinou, juntamente com líderes religiosos, uma declaração onde todos se comprometem a combater este crime. Em Abril passado abençoou o surgir do chamado Grupo de Santa Marta, promovido pela Conferência Episcopal Inglesa mas que junta bispos, congregações religiosas (sobretudo irmãs) e chefes de polícias de vários países contra este terrível mal dos nossos tempos.
Nos dia 5 e 6 de Dezembro o Grupo de Santa Marta teve a sua segunda reunião, desta vez em Londres. Participei nesse encontro com a responsabilidade de ver o que se poderá fazer para empenhar ainda mais a Igreja – nomeadamente os bispos. Desse encontro tirei algumas conclusões.
Primeiro, que a multiplicação de declarações sobre os Direitos do homem não é capaz de garantir o respeito destes; segundo que vivemos numa sociedade onde o egoísmo consumista grita mais alto: se há quem compre escravos, ou quem procure prostitutas, haverá sempre quem, sem escrúpulos, consiga realizar os negócios; terceiro que é preciso ter uma legislação que proteja as vítimas: muitas delas têm medo de pedir ajuda porque temem ser tratadas como emigrantes ilegais e pensam que as autoridades lhes vão fazer mal; quarto são muitas vezes as religiosas e as organizações de caridade que vencem todos os medos e se abeiram das mulheres traficadas e conseguem recuperá-las; quinto que é possível, graças a Deus, ver uma grande sintonia entre políticos sérios, polícias, instituições de caridade, comunidades religiosas, no combate a este crime.
A experiência do grupo de Santa Marta mostra quanto se pode fazer quando todos estão de acordo que abusar das pessoas humanas é imoral. A aliança entre políticos e polícias com a Igreja leva ao surgir de leis capazes de garantir a defesa das vítimas e de dar penas pesadas a quem vende pessoas, ao mesmo tempo lança campanhas para que haja uma tomada de consciência por parte de todos do mal que está a ser praticado.
A meu ver é preciso prosseguir neste caminho. Cuidar das vítimas e prender os criminosos é fundamental, mas há ainda outra coisa a fazer: empenhar esforços na educação, para que ninguém ponha sequer a hipótese de comprar uma pessoa, um órgão ou o prazer sexual. Evangelizar é educar, porque testemunha o amor que Deus tem por cada pessoa e faz crescer a consciência da dignidade humana.
Se tivesse havido algo de semelhante, quando se começou a discutir o aborto, não teríamos chegado à situação actual em que há quem queira declarar o aborto como um direito. Também aí há um mal moral que não respeito a criança, mas também não cuida dos pais.
Estes crimes são terríveis, mas se houver uma crescente tomada de consciência social e uma aliança entre todos podem ser parados.

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