Crónica de Natal (2): O Elogio da Inveja

Há duas invejas: uma destrói, a outra constrói. "Já viste a flausina", pergunta a Dona Henriqueta à vizinha, "a pavonear-se toda produzida?"; "aposto que o casaco é de pele de ratazana". 

A inveja tem muito mau nome.
É raro o cronista que resiste, quando fala dela, a lembrar a última palavra dos Lusíadas. Talvez valha citar-lhes os últimos versos: /fico que em todo o mundo de vós cante,/de sorte que Alexandre em vós se veja,/sem à dita de Aquiles ter inveja! Camões garante a Dom Sebastião que os seus versos, ao mundo cantando-lhe os feitos todos, farão com que Alexandre o Grande nele se reveja sem por Aquiles ter inveja.
Há duas invejas: uma destrói, a outra constrói. "Já viste a flausina", pergunta a Dona Henriqueta à vizinha, "a pavonear-se toda produzida?"; "aposto que o casaco é de pele de ratazana". No nosso íntimo surdo e cego invejamos o que os outros têm, são ou fazem e, com o frenesim dos danados, não queremos senão vê-los perdê-lo, deixar de sê-lo ou de fazê-lo.
A inveja que destrói é a grande inimiga do mérito. Salieri invejou Mozart ao ponto de o matar?
A inveja que destrói execra sobretudo os vivos, como explicou há muito tempo o Padre António Vieira: "Ainda não tendes advertido que a inveja faz grande diferença dos mortos aos vivos e dos presentes aos passados? Os olhos da inveja são como os do sacerdote Heli, (…) que não podiam ver a luz do Templo senão depois que se apagava (…). Enquanto as luzes são vivas, cada reflexo delas é um raio, que cega os olhos da inveja: porém depois que se apagaram, e muito mais se se metem largos anos em meio, então abra a inveja, como ave nocturna, os olhos; então vê o que não podia ver: então venera e celebra essas mesmas luzes e levanta sobre as estrelas seus resplendores". Não será preciso muito mais, apenas me permito citar brevemente uma das minhas crónicas de verão: "É sempre assim em Portugal, somos bons, maravilhosos, cheios de potencial, pelo menos uma vez na vida: quando morremos. Desde que estejamos mortos…".
Somos um povo que pensa, temos de deixar de ser um povo que inveja. Queremos o respeito dos outros, temos de o fazer através da educação, das artes, da ciência, como já reivindicava Eça. Enquanto temermos a inveja não agimos, não ousamos, nem experimentamos. José Gil, na esteira do seu mais célebre livro, em entrevista a Paulo Moura: "Temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: Que bom o que tu fizeste. Estou muito contente. Não. Vão-nos decerto criticar. Isso cria logo um medo que nos paralisa". É terrível o mecanismo da inveja, que Gil considera um verdadeiro sistema, criador de um ambiente que paralisa, impedindo que alguém ultrapasse "a linha da média baixa", o que, numa sociedade fechada como a portuguesa, provoca maiores danos.
Somos os carrascos do nosso próprio potencial.
Permitam-me algumas citações: "A inveja é um vício estúpido do qual se não retira qualquer vantagem" (Balzac); "Eis um invejoso; não lhe desejeis filhos; teria ciúmes deles por já não poder ter a sua idade" (Nietzsche); "a inveja é um inimigo inexorável" (Camilo); "Nunca um invejoso perdoa ao mérito" (Corneille).
Mas quem é afinal o invejoso? Gil, de novo: as pessoas porosas, frágeis, típicas em Portugal, que não suportam o brilho do mérito de quem faz coisas fortes, pois isso, consideram, as diminui. E como são muitas… agem instintivamente, em conjunto, para destruir quem as faz. São como uma alcateia, mas sem machos alfa. Em vez de quererem fazer o mesmo, competir, crescer, sentem-se ameaçadas, diminuídas, apoucadas. E reagem com violência, procurando destruir a ameaça. A competência. O mérito. Muitas vezes conseguem-no.
Que fazer?
Terá Salieri admirado Mozart ao ponto de o tentar emular? A inveja pode, de facto, ser o combustível da ambição – e assim sendo, transformar-se em coisa boa. Claro que isso implica um conjunto de predicados e adjectivos que, associados à execrada palavra, podem a muitos parecer incongruentes; oximoros.
Eu sou invejoso no bom sentido, dirão alguns. Os invejosos (no mau sentido) cair-lhes-ão em cima como lobos, por serem incapazes de perceber o que quer isso dizer. Mas a frase não engana: eu admiro "as coisas fortes" que este senhor fez; admiro o seu mérito, o talento que demonstra, os resultados alcançados; quero ser como ele e fazer como ele; mesmo que o não consiga, tentarei. Quem assim pensa e age é, aliás, uma pessoa forte.
Vamos ser sinceros: somos todos propensos à inveja, como somos todos propensos ao medo ou tentados a mentir, mesmo que apenas socialmente. Ter coragem não é não ter medo, ter coragem é resistir ao medo e ousar. Na mesma ordem de ideias, invejar é natural; meritório é resistir-lhe – transformar a inveja má na inveja boa.
Já estou a imaginar alguns dos meus leitores a afiar a pena: eu, invejoso? Ora.
Pois eu sou-o. Sinto inveja do carro novo de um amigo, do seu triunfo profissional, do dinheiro que acumulou? Que fazer? Eu sei, e sei-o em consciência, que tenho duas alternativas claras:
Inveja má: responder com condescendência ao anúncio dos seus sucessos; rosnar em surdina para quem me quiser ouvir (mostrando-me contrariado ao dizê-lo), que teve sorte, estava no lugar certo na altura certa, houve "cunhas"; congeminar formas de o prejudicar, sub-reptícia, cirurgicamente; usar sempre a adversativa quando o elogiar (e é fundamental elogiá-lo de vez em quando) – "é um profissional fantástico, mas… embora… apesar de…".
Inveja boa: felicitá-lo com sinceridade; procurar imitar, sem plágios nem cópias, o seu comportamento, entusiasmo ou empenhamento; elogiá-lo perante terceiros. Sem adversativas. Em tempo, a admiração sincera crescerá no meu peito.
Combater a inveja má é um imperativo. Ela existe um pouco por todo o mundo, não é exclusiva do nosso país, mas entre nós pesa e impede Portugal de se tornar uma pessoa civilizada (expressão de Almada Negreiros) e de ganhar o seu lugar entre as nações civilizadas (escreveu Eça). Temos de vencer o medo paralisante que José Gil descreveu no seu livro Portugal – o medo de existir -, o pavor da inveja que nos tolhe e limita nas nossas colectivas ambições.
Vamos ser invejosos – no bom sentido!

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