Jesus, um presente de Deus para todos

Voz da Verdade, 2014.12.21
Pe. Hugo Gonçalves

Para melhor percebermos quem é Jesus, temos de remontar àquele momento das origens em que Deus criou o homem e a mulher. Resumidamente, diz-nos o Livro do Génesis que Deus criou a humanidade à sua imagem e semelhança, diferente da restante criação e numa relação de amizade, convivendo juntos no Jardim que Deus tinha criado. O homem era diferente do resto da criação: era amigo de Deus. 

Mas Deus tinha feito um pedido ao homem e à mulher: podiam comer de todos os frutos, de todas as árvores, menos de uma: a do conhecimento do bem e do mal.

Mas não conseguiram resistir. Tentados pela serpente, quiseram ser como Deus e comeram. E tudo neles mudou. Perderam a inocência, viram-se nus e passaram a esconder-se de Deus, ao invés de correrem ao seu encontro como faziam anteriormente. Porque desobedeceram a Deus. Porque quiseram ser como Deus. Porque feriram o amor.

E foram expulsos.

A desobediência do homem e da mulher afastou-os de Deus. E esse afastamento colocou-os fora do paraíso, longe da inocência e da harmonia que tinham experimentado até aí. E a vida tornou-se mais dura de viver…

A partir desse momento, geraram filhos e filhas que se espalharam por toda a terra e que experimentaram a dureza do sofrimento nas suas múltiplas manifestações… e o homem nunca mais conseguiu experimentar a harmonia e a proximidade com Deus, que havia experimentado quando ainda estava no jardim. E esse desejo feria profundamente o homem, como se não conseguisse ser plenamente quem era. Como se sentisse uma saudade do que tinha sido… 

Mas Deus também sentiu essa saudade. E desejou ver regressar o homem à amizade inicial. 

E Deus fez caminho com o povo, que entretanto chamou o SEU POVO. O povo da aliança. Mas a marca original da desobediência e do desejo de ser deus para si mesmo foi sempre muito marcado no homem. E, enquanto Deus permanecia fiel à sua promessa, o homem desobedecia. Desde sempre o homem trazia consigo uma sede insaciável que nem ele próprio sabia interpretar. Era a saudade do que tinha sido… e foram séculos e séculos de saudade…

E Deus percebeu que era preciso resgatar o homem. E que se foi por um homem que o pecado aconteceu, teria de ser um homem a resgatar toda a humanidade ao vazio e ao sem-sentido em que mergulhara, a restituir ao homem a possibilidade de voltar ao jardim, de experimentar a inocência original, de aceitar a amizade de Deus.


E foi então que aconteceu… o anjo Gabriel foi enviado. Foi enviado com uma boa-notícia, um presente de Deus, a uma jovem virgem desposada com José: Maria. A notícia que trazia era a de que Maria havia de conceber e dar à luz um Filho, o Filho da promessa, Jesus, o próprio Filho de Deus. Maria não rejeitou a proposta de Deus: perguntou só de que forma isso aconteceria, sendo ainda Virgem. E o Anjo explicou: será o Espírito Santo a vir sobre ti e a tornar possível o impossível. E aguardou a resposta de Maria. Porque sem essa resposta, Deus teria de alterar o seu projecto inicial. Deus quis contar com a adesão e a resposta livre de Maria e o futuro de toda a humanidade esteve suspenso na espera dessa resposta. Mas o coração de Maria já tinha aderido ao projecto de Deus, ainda antes de o conhecer, e a resposta não tardou nem desapontou: Eis a serva do Senhor, faça-se em Mim, segundo a tua palavra. Como todas as jovens, Maria teria os seus projectos de vida, os seus sonhos de felicidade e, com toda a certeza, não saberia bem tudo o que estava implicado neste desafio que Deus lhe lançava. Mas isso não foi impedimento. Maria acreditou na notícia do Anjo, Maria consentiu no projecto de Deus, Maria recebeu o Filho no seu ventre. Este é o momento em que, este presente de Deus, esperado desde há muito, rasga a história concreta dos homens. Um presente que Maria guarda no ventre e no segredo.


E José? José era um homem bom, o bom carpinteiro que tinha Maria como esposa. Ao deparar-se com a gravidez de Maria, sabendo que esse Filho não tinha nascido do amor entre os dois, José fica confuso. Também ele teria projectos, sonhos, expectativas… E o inesperado surge na sua vida. Sendo um homem justo, José decide afastar-se discretamente de Maria para não a expor ao julgamento público. Abatido, de coração ferido, José sonha. Sonha com um anjo que lhe traz um presente. Um presente de Deus. Jesus é Filho de Deus, obra do Espírito Santo, aquele que salvará o homem dos seus pecados. É o Deus connosco de que Isaías falara setecentos anos antes. É o Deus presente na história, a pisar os caminhos dos homens, semeado no ventre de Maria, ali, na sua terra, na sua casa. O que Deus pede a José é que seja pai de Jesus, guarda do redentor, protector do Salvador. E José aceita. Mais uma vez a resposta humana: Jesus é um presente de Deus, um presente que o homem tem de aceitar receber. 


Não muito longe dali, cerca de seis meses antes, o Anjo tinha sido enviado a uma outra casa. A casa de Zacarias e Isabel, prima de Maria, idosa e estéril, incapaz de gerar filhos. Também eles tinham recebido a boa-notícia de um filho, que havia de preparar o povo para acolher Jesus quando chegasse o momento certo. Seria um percursor de Jesus, aquele que iria à sua frente a preparar o seu caminho. O anjo tinha dito a Maria que Isabel também estava grávida e Maria, logo que pôde, foi ao encontro da prima para a felicitar. Bastou a saudação de Maria, para que João, o menino que crescia no seio de Isabel, desse um pulo de alegria na barriga da sua Mãe e para que ela ficasse cheia do Espírito Santo. Maria reconhece, pelo entusiasmo do filho que trazia dentro de si, que o verdadeiro presente era Jesus. Um presente de Deus para todos. E diz a Maria: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre. Feliz de ti que acreditaste porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor. Isabel reconhece que as promessas que Deus fez, se cumprem porque Maria aceita e responde. Jesus é um presente de Deus, um presente que o homem tem de aceitar receber.


Uns meses depois, quando Maria estava quase a dar à luz, teve de se deslocar com José a Belém, onde deveriam recensear-se. Já em Belém, chega o momento de Maria dar à luz o menino. Estando longe de casa e da família, procuram lugar na hospedaria, onde não há lugar para os acolher e José e Maria não encontram outra solução, a não ser instalarem-se num curral de animais. Jesus não nasceu num palácio, como os reis do mundo, mas num curral. Não teve berço de oiro ou de madeiras nobres, mas foi recostado numa manjedoura, o lugar onde comem os animais. Jesus, aquele que viria a dar o seu corpo e o seu sangue como alimento, começa a sua vida, precisamente, deitado no lugar onde se põe a comida. Isto é uma antecipação da Eucaristia, presente de Deus, onde Deus se faz presente. Jesus também não teve como testemunhas do seu nascimento, as pessoas ilustres, nem os poetas dotados que contassem tão sublime acontecimento, mas simplesmente um par de animais, um burro e uma vaca que ali se abrigavam. Apesar de estarem presentes, dificilmente estes animais entenderam perfeitamente o que ali se passou. Eles simbolizam a humanidade descrente, com dificuldade em compreender a Deus, a quem o Menino é apresentado, como um novo clarão a iluminar os olhos. Mais tarde, veremos Santo António falar aos peixes, num tempo em que a humanidade também não o queria escutar.


Mas Jesus era uma notícia boa demais para ficar confinada à escuridão e ao silêncio do estábulo. Eis que irrompe na noite um canto novo, nunca antes escutado, envolto numa luz nova que corta as trevas. Os pastores recebem um presente: o anúncio de uma grande alegria para todo o povo, o nascimento de um Salvador, que é o Messias Senhor. Os primeiros a receber a notícia e a correr para verem o Menino, foram os pastores que estavam de vigia, que guardavam os rebanhos. Gente simples na presença do Deus simples. Jesus é um presente de Deus para todos, sobretudo para os pobres, os simples, os fracos, os que não têm vez nem voz. Nascido entre pastores, é Ele o grande Pastor dos homens.

Os anjos dirigiram-se apressadamente para verem o que tinha acontecido. A curiosidade humana seria uma das razões para essa pressa, mas haveria uma razão mais profunda: a alegria da promessa cumprida, o desejo de verem o Messias, o espanto de serem os primeiros a conhecê-lo. Não há nada que mereça mais pressa, do que o desejo de encontrar Jesus, presente de Deus para todos. Naquela noite, como agora.


Mesmo depois de ser dada a conhecer aos pastores, a notícia era boa demais para ficar reservada a um país e a um povo pequeno como o de Israel. Por isso, uma noite, sob o céu quente do Oriente, define-se uma nova estrela. Uma estrela que é um anúncio. Uma estrela que é reconhecida como um anúncio e cujo brilho é seguido por três magos conhecedores das profecias que a seguem até Israel. Estes três homens iniciam aqui um caminho exterior e interior que os levará a Jesus. Se o que esperavam era um rei, o mais lógico foi dirigirem-se ao palácio real, certos de que seria lá que nasceria o novo infante. Não encontraram o que buscavam, mas despertaram a desconfiança e a astúcia de Herodes. Sente-se ameaçado perante este rei anunciado que não nasce na sua casa, nem da sua linhagem… Assusta-se com o desconhecido… mesmo que venha da parte de Deus. Dissimula o seu medo e as suas intenções e roga-lhes que lhe tragam notícias para que também ele possa ir prestar homenagem a esse Menino. Seguindo a estrela, descobriram Jesus deitado na manjedoura e ofereceram-lhe presentes, reconhecendo que era ele o verdadeiro presente. O aparecimento dos magos nesta história, torna evidente que Jesus não era um presente apenas para alguns, apenas para aqueles que faziam parte do povo e do Reino. Era para todos. E, por isso, ao longo do tempo foi-se evidenciando nas figuras dos magos essa universalidade da boa-notícia que Jesus é. Assim, temos Gaspar, Baltasar e Belchior, um da Ásia, um de África e um da Europa. O mesmo também em relação às várias fases da vida do homem. Por isso, um é jovem, um é de meia-idade e um é idoso. Estes magos, representam um início, um caminho que toda a humanidade é convidada a fazer em direcção a Cristo. Um caminho que a humanidade continua a fazer, na longa procissão da história. Jesus é um presente de Deus para todos, sem excepção de idade, raça e proveniência. Todos o podem encontrar, desde que se disponham a seguir a estrela que a vida define no nosso caminho e descubram essa pressa de a seguir. Há uma luz que faz brilhar a estrela: Jesus.

Quando a estrela parou, os magos sentiram uma grande alegria. É a alegria do fim da jornada, da meta alcançada, do encontrar e ser encontrado. Entraram no estábulo, adoraram o Menino e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, sem voltarem a Herodes, regressaram à sua terra. Os presentes simbolizam e identificam diferentes aspectos acerca de Jesus: o ouro, como tributo aos reis terrenos; o incenso, oferta apresentada a Deus; a mirra, como unguento usado nos ritos de sepultamento dos mortos. Os magos dizem-nos: Jesus é Rei, Jesus é Deus, Jesus é Homem. 


Esta história não acaba aqui. Este Jesus vai surgir publicamente a anunciar a chegada do Reino, e vai caminhar livremente para um desfecho inesperado para os homens do Seu tempo: a cruz. Se por um homem, Adão, vieram o pecado e a morte ao mundo; só por um outro homem, Jesus Cristo, poderíamos alcançar novamente o perdão e a vida eterna. O Jesus da manjedoura, pobre e indefeso, é o mesmo da cruz, vindo ao mundo para pagar o resgate de todos os homens e abrir-lhes, para sempre, o caminho da amizade com Deus.

Deus não desistiu do homem. Por isso, enviou Jesus.

Jesus é um presente de Deus. Jesus é Deus presente.

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