D. António Moiteiro. "A corrupção não é de agora, houve sempre quem não pensasse no bem comum



O bispo de Aveiro alerta para a "crise de valores", que tem consequências a todos os níveis, da política à queda da natalidade

Se o Papa Francisco veio do fim do mundo para governar o Vaticano, D. António Moiteiro foi escolhido no Interior do país para liderar a diocese de Aveiro. É o mais recente membro do episcopado português: foi feito bispo em Setembro e a contragosto. Conta que quando o núncio apostólico lhe telefonou ficou angustiado. Teve medo de não ser capaz e preferia viver no meio das pessoas. "Estava muito melhor como padre", confessa. O bispo de Aveiro fala do significado do Natal e mostra-se preocupado com a queda da natalidade - um fenómeno que já não é exclusivo das zonas mais isoladas. "A realidade que existia há dez, 15 anos no Interior começa agora a manifestar--se no Litoral", avisa. 
Foi pároco em aldeias do Interior. Que realidade encontrou nesses lugares? 
Durante sete anos fui padre de três aldeias da Guarda - João Antão, Santana D'Azinha e Panóias. Antes e depois disso estive em paróquias da cidade. Na altura, há dez anos, a realidade era diferente da de hoje. O principal problema era o isolamento das pessoas mais velhas. Havia muitos idosos a viver completamente sozinhos em quintas. Já se fazia sentir o efeito da desertificação e do envelhecimento populacional, embora agora o problema se manifeste de forma mais intensa. 
O Interior continua a perder pessoas. 
Está cada vez mais desertificado e é um fenómeno que já não diz respeito só ao Interior - que se transformou numa espécie de reserva agrícola e turística. A emigração tem sido uma constante, e quem fica em Portugal acaba por se deslocar para o litoral. A verdade é que os concelhos do Interior não têm meios para fixar as pessoas. 
Mas as autarquias até fizeram investimentos avultados nas últimas duas décadas. 
É verdade que se construíam estradas e equipamentos. Mas o principal motor para a fixação da população é a criação de emprego. Sem emprego as pessoas não ficam porque não conseguem viver. É um problema gravíssimo e que põe em causa a renovação de gerações. Quem ficou no Interior são pessoas mais velhas. E a quebra da natalidade é dramática. É uma realidade preocupante. E mais preocupante ainda se pensarmos que não é só no Interior que as pessoas não têm filhos. Agora que estou no litoral vejo que o problema também já se sente aqui. 
De que maneira? 
A realidade que existia há dez, 15 anos, no Interior começa agora a manifestar--se no Litoral. Antes de vir para Aveiro estive dois anos em Braga e percebi que, mesmo nestas zonas, também já não há crianças. E isto enfraquece o país. Não há substituição de gerações, o que é dramático de todos os pontos de vista. Como é que se pode garantir a sustentabilidade da Segurança Social se não se inverte esta realidade? Em Aveiro, que é litoral, a maioria das paróquias tem mais funerais que baptizados. O país tem de enfrentar este problema. 
Os casais não têm filhos porquê? Por uma questão de dinheiro? 
Também. Mas eu julgo que é sobretudo por uma questão de valores e de alguma falta de generosidade. Repare: esta queda da natalidade não é de agora. Há muito que o número de nascimentos tem vindo a cair, ano após ano. Mesmo em períodos em que o país estava melhor do ponto de vista económico. O que se passa é que existe uma organização da sociedade que não é favorável a que se tenha filhos. 
Em que aspectos? 
O Papa, na exortação apostólica "A Alegria do Evangelho", explicou isso muito bem. As nossas sociedades estão organizadas para a economia - e para uma economia liberal. A economia é a meta e o fim para onde tudo caminha. Quando na realidade o homem deveria ser posto no centro de tudo. Da economia, da política, das políticas sociais. Tudo isto está invertido. 
Falava há pouco na falta de generosidade dos casais. 
Sim. Muitos casais fecham-se, hoje, num certo egoísmo e falta de valores. E também isso acaba por estar na origem desta quebra de natalidade dramática. 
Esse egoísmo tem a ver com o quê? Refere-se a casais que até poderiam ter filhos mas escolhem não o fazer? 
Vivemos numa sociedade bastante individualista na forma como se organiza, e isso reflecte-se nas famílias. Muitas pessoas preferem um certo conforto. Seja como for, é certo que hoje em dia ter três ou quatro filhos é uma aventura. E não devia ser! As exigências da vida são hoje muito maiores, dois salários baixos por vezes não chegam para fazer frente às despesas. 
A mudança no papel social da mulher também contribuiu para a queda da natalidade? 
Também. Enquanto há uns anos uma mulher, se quisesse, podia ficar em casa para educar e cuidar dos filhos, hoje isso só é possível em estratos sociais muito elevados. Numa família média, os dois membros do casal têm forçosamente de trabalhar. Porque, como dizia, as exigências hoje são maiores. A mulher tem um papel importante na sociedade e, como é evidente, a autonomia da mulher é uma coisa muito boa. Mas é preciso arranjar um equilíbrio. Só um suporte económico forte permite educar os filhos. Dois jovens precários, a ganhar 500 euros por mês cada um, podem educar uma criança e pagar a renda de uma casa? É muito difícil. Há um equilíbrio social que temos de construir. 
Que responsabilidades tem o Estado nesta matéria? 
O papel não pode ser atribuído só ao Estado, só à Igreja, ou só a um determinado grupo de pessoas. Inverter esta realidade é uma tarefa de todos e em que todos teremos de nos concentrar e empenhar. Sabemos que a noção de família também se alterou profundamente. 
Esse assunto é dos que a Igreja está a debater. A Igreja deve aproximar-se das pessoas que vivem de forma irregular ou as famílias é que devem alterar os seus comportamentos para ir ao encontro da Igreja? 
Temos de distinguir duas coisas. Primeiro, apresentar a família como o amor entre o marido e a esposa com abertura à vida. É para este modelo que temos de ir formando as pessoas. No entanto, também sabemos que, por muitas circunstâncias da sociedade e da secularização, o modelo de família se alterou profundamente. Aumentaram as famílias reagrupadas, as uniões de facto tornaram- -se comuns. Perante isto, a Igreja quer aproximar-se das pessoas e ter uma palavra pastoral para elas. Embora haja situações com as quais não podemos concordar. Mesmo assim, encontramos no Evangelho muitas situações em que Jesus condenou o pecado mas teve uma palavra de ânimo para o pecador. O paradigma da relação da Igreja com as novas situações das famílias tem de passar por isso. Ir ao encontro das pessoas. Sendo certo que as atitudes de cada pessoa têm consequências. 
Isso quer dizer que ir ao encontro das pessoas não significa abrir, por exemplo, a comunhão aos divorciados recasados. 
Teremos de ver a que conclusão chegará o sínodo da família. Seja como for, julgo que tem de se ver sempre a situação das pessoas caso a caso. Numa situação de divórcio, há gente que foi vítima e é inocente ou que teve menos culpa da ruptura. Vamos tratar todas as pessoas da mesma maneira? 
Um dos temas em debate no sínodo é o uso dos métodos contraceptivos. Há pouco falava da queda da natalidade. O uso generalizados de contraceptivos poderá ser outras das causas dos poucos nascimentos? 
Julgo que não. Considero que a paternidade e maternidade responsáveis passam por os pais, de acordo com as condições em que vivem, poderem escolher o número de filhos e, numa lógica de abertura à vida, construir a sua família. 
Não vejo que os métodos, por si só, possam ser inibidores da taxa de natalidade. É bom que exista uma natalidade consciente. Outra coisa é a moralidade dos contraceptivos. Mas essa é outra questão. 
Se Maria e José vivessem no nosso tempo, acha que teriam Jesus? José era carpinteiro e Maria dona de casa... viviam mal. 
Nada disso! Felizmente continua a haver muitos carpinteiros e famílias menos abastadas que têm filhos! E temos de olhar para a família de Nazaré não como uns coitados, mas como uma família normal do seu tempo. Mas sim, José e Maria podem servir de inspiração às famílias do nosso tempo. Na altura, uma mulher ficar grávida sem estar casada, como aconteceu a Maria, era uma coisa gravíssima. Segundo a lei judaica, poderia ser morta à pedrada - coisa que ainda existe em países do Médio Oriente. Mesmo assim, Maria aceitou. Correu riscos. Sujeitou-se a ser repudiada por José. Apesar das dificuldades e do que poderia vir a seguir, aceitou ser mãe de Jesus. É esta generosidade que falta nos dias de hoje. Veja uma coisa: se nós fizermos demasiadas contas, se formos muito calculistas, nunca nos aventuramos a ter filhos. E quem é cristão sabe que Deus nunca abandona. 
Incomoda-o que o Natal se tenha tornado uma festa pagã? 
Não. Mas uma coisa é certa: é preciso dar a volta ao aspecto comercial do Natal. Tenho feito um apelo que é, em vez de nos metermos na correria do consumismo, porque não oferecer presentes solidários? Há vários projectos, por exemplo de apadrinhamento de crianças em África. É um excelente presente para dar a um amigo. Se conseguíssemos multiplicar este tipo de gestos, devolveríamos ao Natal o seu significado original. O Natal é amor. Agora... que possamos celebrar com a família e os amigos e dar um presente ou outro... isso é muito bonito. 
Costuma dar presentes? 
Sim. Às crianças. Sobretudo aos sobrinhos ou a alguém que vejo que precisa. Mas só dou coisas úteis. Uma peça de roupa, livros para a escola. 
Tem muitos sobrinhos? 
Tenho dois. Nasceu agora uma sobrinha--neta, tem dois meses. 
E afilhados, tem? 
Tenho dois ou três. 
E desde que se tornou bispo passou a receber mais presentes? 
Não.
Não?
Não. Até lhe posso dizer que as paróquias são mais generosas que as dioceses nesse aspecto. Porque nas paróquias há uma relação mais próxima com as pessoas, de amizade, enquanto nas dioceses - e embora eu procure cultivar essa relação de amizade e de proximidade - é tudo muito mais institucional. Este ano, por exemplo, noto que estou a receber mais boas festas institucionais. De congregações, das câmaras municipais... 
Onde passou o Natal? 
No dia 24 fiz a ceia de Natal com os sem--abrigo da cidade e depois estive com os estudantes estrangeiros da Universidade de Aveiro. No próximo domingo de manhã irei para a minha terra, a aldeia de João Pires, na zona da Guarda, para estar com os meus pais, a minha irmã e os meus sobrinhos. 
Disse que nas paróquias as pessoas eram mais generosas. Que presentes lhe davam nas aldeias? 
Coisas do campo. As coisas que as pessoas tinham. Queijos, patos, coelhos, sacas de batatas, garrafões de vinho [risos]. 
Patos vivos? 
Sim. Quando vivia no Seminário da Guarda e não tinha casa as pessoas davam- -me coisas mais pessoais. Uma camisola, meias, essas coisas. Mas quando já estava nas paróquias da cidade, e vivia numa casa, davam-me animais. 
Animais vivos? 
Sim.
E o que lhes fazia? 
Tinha de os matar! Patos, galinhas. Uma vez deram-me um ganso. 
Como é que levou o ganso para casa? 
Às vezes iam levar-me as coisas à porta de casa. Mas o ganso, que me foi dado numa aldeia chamada Avelãs de Ambom, tive de o transportar dentro de um saco. Também me aconteceu andar nas estradas da serra e, sem querer, matar coelhos com o carro, na estrada. E lá tinham de se comer! 
E o que fazia aos garrafões de vinho? 
Bebia-os, ora! [Risos] 
Queria ser bispo? 
De maneira nenhuma. 
Porquê?
Quando sentimos o chamamento é para o sacerdócio e realizamo-nos como padres. O ser bispo... é a Igreja que nos chama. Ser padre é uma vocação e ser bispo também tem de ser, mas enquanto eu escolhi ser padre não escolhi ser bispo. Escolheram-me. E digo muito honestamente que estava longe das minhas ideias e dos meus propósitos. Nem nunca imaginei. 
Foram buscá-lo ao fim do mundo, como ao Papa Francisco. 
[Risos.] Cada um vem do seu fim do mundo. Aqui é um mundo mais pequeno, são só 200 quilómetros. 
A sua vida agora é mais aborrecida? 
Não. É só diferente. Enquanto nas paróquias o trabalho era muito ligado às pessoas - estar com as crianças, os catequistas, preocupar-me com as coisas da liturgia -, agora é mais de coordenação de quem anda no terreno. Eu gosto muito de estar e andar no meio das pessoas e vou fazer isso quando começar a fazer as visitas pastorais. Embora esse trabalho não me liberte das tarefas de coordenação. Pôr as pessoas a pensar, programar o que se vai fazer na diocese. 
É também um trabalho de diplomacia, com outras instituições que não a Igreja? 
Também. A figura do bispo tem um lugar na sociedade que exige um diálogo com as instituições da região onde a diocese está implantada. A nível social, político, empresarial. 
Como é que as instituições políticas lidam com o episcopado? 
Tenho tido boa relação com as câmaras. 
Gosta de política? 
A política, enquanto cuidar do bem comum - todos somos seres políticos e devemos interessar-nos por ela -, é uma coisa nobre. Quanto à política partidária, faço as minhas opções, mas entendo que não as devo manifestar. 
Porquê?
Porque eu tenho de ser bispo de todos e não de facções ou de partidos. 
Concordará que a política que se tem feito parece não assentar só no cuidar do bem de todos... 
A política como vocação, e é uma vocação sublime, deve preocupar-se com o bem dos cidadãos e não com o bem dos políticos. 
Agora até temos um ex-primeiro- -ministro detido. 
Em prisão preventiva. Não podemos fazer juízos de valor em relação à sua culpa. Teremos de deixar os tribunais fazerem o seu trabalho. 
Mas não acha que tem havido uma sucessão de acontecimento atípicos? A derrocada do BES, o escândalos dos vistos gold, a detenção de José Sócrates... 
Isso tem a ver com aquilo de que falávamos há pouco. A crise de valores. E essa crise pode afectar toda a gente. Até as pessoas da Igreja. Afecta-nos a todos, é próprio do ser humano. Somos chamados ao mais, ao maior, à superação. Mas somos humanos e essa falta de valores reflecte-se no nosso estar em sociedade. Mas repare... a corrupção não é um fenómeno só de agora. Agora pode ser mais clamoroso ou mediático, mas sempre houve gente que não pensou no bem dos outros mas sim no seu. 
O dinheiro é a principal tentação? 
Já vem dos primeiros tempos, em que o dinheiro é identificado com um deus. E quando adoramos um falso deus - e existem outros falsos deuses, como o sexo desordenado ou o trabalho, quando se vive só para trabalhar - destroem o ser humano na sua dignidade. Nestas economias liberais, tudo gira em torno do dinheiro. 
Agora que é bispo recebe mais. 
Não recebo não, recebo como os outros padres. 
Não foi aumentado? 
Não. Tenho o suficiente para viver, para que é que preciso de mais? 
Mas aumentaram as suas responsabilidades. 
Sim, mas ganho o mesmo. 
É muito dinheiro? 
É o suficiente. Pouco mais que o ordenado mínimo. 
Mas tem uma casa melhor. 
Na Guarda também tinha uma casa paroquial óptima. 
Quem é lhe deu a notícia da nomeação? 
Foi uma circunstância caricata. O núncio apostólico telefonou-me num domingo à noite, estava eu no supermercado. O Banco Alimentar estava a fazer uma recolha e fui lá às compras, antes de ir rezar o terço às 21 horas. Estava na fila para pagar quando me telefonaram. 
O que lhe disseram? 
O núncio apresentou-se, disse que queria falar comigo e perguntou se eu poderia ir a Lisboa. Eu respondi que tínhamos de pensar melhor nisso porque em princípio não iria aceitar. 
Porquê? Ficou assustado? 
Claro. Andei uns dias muito angustiado. 
Mas tinha medo de quê? De não ser capaz? 
Sim... e não era só isso. Estava muito melhor como padre. 
Porque tem mais preocupações? 
É o que já lhe expliquei. Isto é mais institucional. E no final quando há dificuldades as grandes decisões são do bispo. Tenho de ser eu a decidir, ainda que ouça outras pessoas. Não é que tenha medo de decidir, mas isso provoca uma certa dificuldade interior. Também é verdade que muita gente nos ajuda nesta missão. Mas é uma missão que do ponto de vista social até pode parecer atractiva, mas do ponto de vista eclesial nem tanto. Há muita falta de meios, por exemplo. As dioceses hoje são pobres, vivem as dificuldades que qualquer família experimenta. E isso faz com que tenhamos de procurar soluções novas e tudo o que é novo é difícil. 
As dioceses atravessam dificuldades económicas porque recebem menos donativos? 
Sim. As dioceses viviam muito do contributo das pessoas e das taxas próprias, como qualquer repartição oficial. Casamentos, festas. Isso alterou-se profundamente nos últimos tempos e as taxas são muito menores. Há menos casamentos e as dioceses estavam muito baseadas nisso. E sim, os donativos diminuíram significativamente. 
Que novas soluções tem procurado? 
Olhe... rentabilizar o património que temos. 
Vender?
Vender, mas não só: rentabilizá-lo. E temos de viver mais pobremente, de forma mais austera. Embora para mim isso não seja problema. Entendo que viver de forma mais pobre é uma virtude. A pobreza é a virtude do desprendimento. Não confundir com a falta de bens, carência ou não ter para viver. Mas tendo para viver devemos viver com simplicidade. Esta é a mensagem do presépio. 
Equacionaria vender património da diocese a chineses? 
Eu não equaciono, mas não me repugna. Se tudo estiver legal, o dinheiro deles é igual ao nosso. A Igreja não vive fora do mundo ou da sociedade. Embora tenha de ter maiores preocupações morais. 
Que realidade social encontrou em Aveiro? 
Cheguei há pouco tempo, mas um aspecto que me preocupa é haver dezenas de sem-abrigo na cidade. 
É um fenómeno novo nas cidades mais pequenas. 
Sim. A semana passada encontrei-me com um grupo deles e fiquei angustiado. São pessoas novas, 30 anos, que não se dão com os pais ou são toxicodependentes. Há um conjunto de factores que os excluem da realidade social. E temos de ir às causas que os levaram a auto-excluir-se e combatê-las. É esse o caminho. Temos um serviço que procura dar resposta, distribuindo refeições. Mas reconheço que não chega. É preciso mais envolvimento de todos, de todas as instituições. Seria bom criar uma casa albergue para as pessoas passarem a noite.

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