Quem não preferia os intervalos às aulas?



Isabel Stilwell
ionline 2014.12.27

Os arautos da desgraça que perdoem, mas a maioria dos nossos adolescentes recomenda-se. As boas notícias que não lhe dão
Adoramos a desgraça. Desculpem, mas é verdade. Andamos sempre a queixar-nos que os jornalistas são uns vampiros que andam por aí em busca de sangue, esquecidos de quem animadamente consome a dose de tragédias diárias, sem procurar alternativas. E os jovens, os jovens são o prato favorito daqueles que alegam que tudo está perdido e que os "valores" foram por água a baixo, levados por criaturas caprichosas que só pensam em droga, sexo e rock and roll, riscam paredes, cospem na sopa e não ajudam a avozinha a atravessar a rua. Bandalhos ou vítimas, conforme convém à tese defendida no momento, ao partido ou ao político que os quer usar a favor das suas convicções.

Talvez por isso haja quem, mesmo em época de festas, não goste de saber que a maioria dos adolescentes portugueses estão muito bem, obrigada, e sim, apesar da crise. E quem o diz é um dos estudos mais rigorosos aos comportamentos dos adolescentes, o Health and Behaviour in School Aged Children (HBSC), coordenado em Portugal pela professora Margarida Gaspar de Matos, que esta semana divulgou o relatório de 2014. Esta iniciativa da OMS torna possível avaliar a situação dos alunos do 6.o, 8.o e 10.o anos de cada país, com uma idade média de 14 anos, medindo o pulso à situação e percebendo a tempo (espera--se) os sinais de alerta, e aqueles que correm perigo e a que é preciso deitar a mão. E há muitos a quem deitar a mão, mas hoje fique com as boas notícias:

1. A maioria dos adolescentes portugueses vive com o pai e a mãe, ambos empregados. E vivem bem: 79% têm quarto individual, 73% vivem numa casa com dois ou mais computadores (24% com um), dois ou mais carros (60%) e, felizmente, 92% nunca vão para a cama com fome (1,3% vão sempre!).

2. A maioria está contente com o corpo que tem, as raparigas menos, e por isso constituem a maioria dos 11% que fazem dieta. Praticam actividade física regular, elas um pouco mais sedentárias (mas menos do que já foram).

3. Quando lhes perguntam o que gostam mais e menos na escola, os colegas e os intervalos vêm em primeiro, e as aulas e a comida da cantina em penúltimo e último. Preocupante, talvez, mas Dah, quem não teria respondido assim com a idade deles (ou mesmo hoje)?

4. É gente que vê pouca televisão, tendo-a substituído por consolas, computadores, internet e telefones inteligentes. A maioria dos rapazes joga meia hora ou menos por semana, usando o computador para conversar, aceder à internet e fazer os TPC, durante uma a três horas por semana. Usam as redes sociais, enviam mais de dez SMS por dia, e com a idade o uso cresce. Só 20% fazem selfies, quase exclusivamente elas. Concluindo, a dependência da internet dos jovens portugueses, medida numa tabela internacional, é de 17,69 em 45. Nada mal, portanto.

5.  Esqueça essa ideia de que o cyberbullying é uma inevitabilidade. 89% dizem que nunca estiverem envolvidos em tal (vítima, 5,5%, vítima e provocador, 3,4%, e provocador, 2%).

6. Quanto a dependências as notícias são boas, registando-se um decréscimo do uso de tabaco, álcool e outras substâncias ilegais. A maioria nunca experimentou tabaco (84%), álcool (59%) ou drogas ilegais (94%). O desafio está em conseguir que se mantenham assim à medida que crescem...

7. O melhor ficou para o fim: os adolescentes portugueses consideram que têm uma óptima relação com a família (uma média de 8,8 numa escala de 0 a 10) e sentem-se muito apoiados por ela (23 num máximo de 28).

8. Segue-se a surpresa de bónus para os arautos da desgraça. Procurando conhecer os efeitos da crise económica na vida dos jovens, foi-lhes perguntado o que tinha mudado, e as respostas provam que os mais novos sabem enfrentar os desafios: 51% dizem que passaram a valorizar mais o que têm, 40% poupam mais, 38% dão mais importância a tirar boas notas e ao estudo e 34% procuram formas de entretenimento com os amigos que não levem a gastar dinheiro. A relação com os pais também melhorou, embora 21% afirmem que há um clima de maior tensão em casa.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

OS JOVENS DE HOJE segundo Sócrates

Como se calculam os 40 dias de Quaresma?