Tenho um vício antiquado: gosto de livros...

Público, 2012.03.23
José Manuel Fernandes
Quando entrei para o liceu, aos 10 anos, o meu pai começou a dar-me uma semanada: todas as semanas, recebia o suficiente para pagar os bilhetes de ida e volta entre casa e o Pedro Nunes e sobravam-me 13 escudos (6,5 cêntimos, ou o equivalente a 2,75 euros com correcção monetária) para as minhas coisas. Ao fim do mês, podia juntar 52$00, ainda curto para os 56$00 que custava, na altura, cada volume de uma História Universal que a Verbo Juvenil estava a publicar. Como se me meteu na cabeça fazer a colecção, arranjava o resto do dinheiro fintando os "trinca-bilhetes" da Carris e fazendo algumas das viagens sem pagar. Não falhei nenhum volume. 

Nunca mais deixei de comprar livros, por certo não aplicando neles todas as poupanças, mas muitas vezes ia além da conta, peso e medida. Especialmente quando, antes de a Amazon nos facilitar a vida, excedia sempre o peso autorizado nas viagens ao estrangeiro, já que a visita às livrarias de qualquer cidade sempre foi para mim uma prioridade. 

Vem tudo isto a propósito de duas notícias recentes que, mais do que me entristeceram, chamaram-me a atenção para o risco de desaparecer um certo mundo que sempre associei ao livro e à leitura. A primeira foi o fim da Livraria Portugal, em Lisboa, uma casa onde as estantes se estendiam por dois andares e era sempre possível encontrar edições antigas e obras que já tinham desaparecido das prateleiras apressadas das novas livrarias fast-food - ou "fast removal". A segunda foi a absorção pela Porto Editora de uma das editoras que mais respeitava, a Assírio e Alvim. É provável, é mesmo quase certo, que esta compra tenha permitido salvar aquela chancela e manter no mercado os mais de mil títulos do seu catálogo, mas isso sabe-me a pouco. 

O fim da Portugal e da vida autónoma da Assírio e Alvim são dois sinais do empobrecimento do mundo do livro, mesmo quando, aparentemente, se multiplicam as edições. É provável que nunca se tenham editado tantos livros em Portugal e não duvido que algumas das cadeias de livrarias de centro comercial abriram lojas em cidades e bairros onde antes não existia qualquer livraria. Isso poderia ser uma boa notícia se, por baixo da superfície reluzente da mais recente promoção, não se escondesse a monotonia do tudo mais ou menos igual. 

Experimentem entrar nalgumas dessas livrarias estandardizadas, experimentem depois voltar lá uma semana, um mês mais tarde. Não poderão deixar de notar, em primeiro lugar, que grande parte dos livros em destaque é a mesma de livraria em livraria e, depois, que muitas das obras em exposição hoje já serão difíceis de encontrar, mesmo nas prateleiras, passadas algumas semanas. Mais: se procurarmos os livros da Assírio e Alvim, dificilmente os encontraremos em destaque, nas prateleiras estarão apenas alguns poucos títulos do seu vasto catálogo e é muito provável que desesperemos se perguntarmos por eles a um daqueles empregados distraídos que tanto podia estar ali como numa loja de roupa interior. 

Bem sei que hoje, graças às cadeias de vendas online, é mais fácil aceder a edições antigas e quero crer que, a prazo, os ebooks democratizarão o acesso à leitura. Mas não me deixo enganar: um livro deve ser sempre uma descoberta e não é possível descobrir livros interessantes e surpreendentes nessas livrarias de centro comercial como antes se podiam descobrir subindo às escadas que se encostavam às prateleiras da Livraria Portugal ou escutando os conselhos de alguns dos seus empregados, gente que só sabia viver entre livros e os conhecia amorosamente. 

Também não creio que o músculo financeiro da Porto Editora, até o profissionalismo da sua equipa, possam facilmente substituir o olhar único que tinham sobre a edição o desaparecido Hermínio Monteiro ou o seu sucessor Manuel Rosa. A Assírio e Alvim salvou-se, mas já não será bem a mesma Assírio e Alvim. 

Há, pois, velhos hábitos de consumo e edição de livros que estão a desaparecer e o seu fim deixa-nos mais pobres. Ficamos cada vez mais dependentes de edições formatadas para chamarem a atenção de cada vez menos leitores nos seus curtíssimos intervalos de celebridade nas mesas dos destaques de livrarias monotonamente iguais e que digerem vorazmente as novidades, esquecendo-as logo de seguida. Perde-se a originalidade de editores que, mesmo não sabendo fazer best-sellers, sabiam produzir livros originais, cuidados, surpreendentes. E são cada vez menos os livreiros capazes de nos guiar à procura de edições desconhecidas. Não é o fim do mundo, mas é fim do mundo de livro tal como o conheço desde esses anos adolescentes em que, apertado pelo orçamento, escolhia nas prateleiras os livros que custavam menos mas tinham mais páginas, para que a leitura pudesse durar mais tempo...

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