Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. O amor e o sexo entre os católicos

ionline 2014.10.14

Dois namorados, um casal em união de facto e um casamento que dura há 15 anos. Os bispos de todo o mundo estão em Roma a debater as novas realidades da família e o i quis saber como vivem e pensam os casais católicos de hoje
Há dois anos, Pedro e Mariana cansaram-se de não ter tempo para estar juntos. Na maior parte dos dias ele só saía do trabalho depois das três da manhã e ela acordava cedo. Sobrecarregados com as carreiras, só se viam aos fins-de-semana e aos bocadinhos, antes da hora de jantar. Num mês de Novembro, fartos de tanta logística, juntaram as famílias para anunciar que tinham decidido viver juntos.
A família dele, conservadora e católica, foi a que lidou pior com o assunto: "Então mas agora vão viver assim, em pecado?" Com o tempo, todos acabaram por aceitar a ideia, a relação ganhou força e o casamento está marcado para Julho do ano que vem. Pedro e Mariana são católicos, vão à igreja e continuam a acreditar que não é por viverem em união de facto que estão em pecado. Mas o catecismo da Igreja Católica é claro: a "convivência" e o "concubinato" antes do casamento constituem uma "ofensa à dignidade do matrimónio".
Certo é que há cada vez mais casais católicos a viverem debaixo do mesmo tecto antes de casar e, consciente das mudanças do mundo moderno, a Igreja está a debater o assunto no sínodo da família que decorre, até dia 19 deste mês, no Vaticano. "No Ocidente, a coabitação é frequentemente uma escolha inspirada por uma atitude generalizada, que se opõe às instituições e aos compromissos definitivos, mas também enquanto se espera por uma situação segura (trabalho fixo e rendimento)", admite o relatório intercalar do sínodo divulgado ontem pelo cardeal Peter Erdö. O documento reúne os principais pontos em discussão no encontro de bispos e servirá de base para os debates que vão acontecer, esta semana, em pequenos grupos de trabalho.
Deve ou não a Igreja aceitar plenamente uniões como as de Pedro e Mariana? Actualmente, explica um canonista, a Igreja olha para estes casais como se ainda "não tivessem descoberto que devem viver segundo a vontade de Deus" e na expectativa de que não seja uma situação definitiva. "Como na parábola do filho pródigo, em que o filho percebe sozinho que erra, decide voltar a casa e é perdoado pelo pai", acrescenta um sacerdote. Antes do casamento, os casais que viveram em união de facto devem confessar-se e arrepender-se.
CASTIDADE E CASAMENTO Ao mesmo tempo que se levanta a questão da coabitação, surge o problema da sexualidade antes do casamento. Também neste ponto o catecismo católico é rigoroso: o sexo só é aceitável num quadro de união matrimonial. Marido e mulher devem doar-se um ao outro numa perspectiva de "abertura à transmissão da vida". Numa relação sexual, as duas vertentes, da entrega e da reprodução, devem estar presentes. E o sexo não pode ser entendido somente como uma forma de obter prazer. Quando praticado antes do casamento, consta da lista das "ofensas à dignidade do matrimónio".
Marta e Francisco são católicos. E se ele às vezes até é capaz de trocar o futebol pela missa, ela faz questão de ir à igreja todas as semanas e participa, desde sempre, em actividades religiosas dentro e fora da paróquia. Apesar da educação e das convicções católicas, há seis anos - e pouco depois de começarem a namorar na escola -, decidiram perder a virgindade um com o outro. "Se pensei que isso era contra a moral católica? Pensei. Mas se gostávamos tanto um do outro e tínhamos planos e ideias de futuro... não estávamos a fazer nada de errado. Afinal o que importa não é o amor?", questiona Marta, apesar de confessar que os primeiros tempos de intimidade foram vividos com angústia. Mas não por ter praticado um acto contrário aos ensinamentos da Igreja. "Sentia-me assim por ser muito nova. Tinha as dúvidas naturais de uma miúda de 14 anos e não era uma coisa de que pudesse falar com os meus pais e até com as minhas amigas, porque fui a primeira a perder a virgindade", recorda.
O namoro deu certo. Passaram seis anos, Marta e Francisco continuam juntos e ainda não falam em casar, apesar de o casamento fazer parte do projecto de vida a dois. "Se não estivéssemos na relação com essa seriedade, então não valeria a pena estar juntos", garante Francisco. Só que para casar é preciso ter "condições" e "autonomia financeira" e Marta ainda não acabou a licenciatura.
A Igreja entende o namoro como um período de preparação para o matrimónio. "Quanto mais profundo for o conhecimento entre os noivos e os namorados, maiores probabilidades haverá de o casamento ser bem sucedido", explica o canonista ouvido pelo i. Assim, acrescenta o padre, "o que se pede aos namorados é que se conheçam, nos seus gostos e defeitos". Esse travar de conhecimento não passa pelo sexo, uma vez que se trata de uma dimensão reservada a quem contrai o matrimónio. E mesmo para esses há regras a ter em conta.
O SEXO NO CASAMENTO João e Cristiana, católicos convictos e casados há 15 anos, sabem bem o que lhes é vedado. O sexo só pelo sexo ou por prazer pode constituir "uma ofensa a Deus". Para a Igreja, sexo, amor e reprodução estão interligados e nenhuma das vertentes pode faltar na equação. "O sexo é uma doação para toda a vida numa relação aberta a filhos", insiste o canonista.
Cristiana e João, na casa dos 40, têm duas filhas e admitem que fazem planeamento familiar desde que casaram pela Igreja. "Nunca nos deixámos tolher pela condenação da doutrina moral e esse planeamento não põe em causa a nossa identidade cristã", defende ela. "Nestas e outras matérias, há um desfasamento da Igreja em relação à realidade do mundo", acrescenta ele, exemplificando com a não aceitação plena dos divorciados ou dos homossexuais. Um e outro concordam: o excesso de regras só tem um resultado: "Levar os homens a ajuizar a vida dos outros homens, quando o que Jesus quis ensinar foi a fraternidade e o amor."
Marta e Francisco, Pedro e Mariana e João e Cristiana estão em fases diferentes da vida. Mas todos esperam que do sínodo dos bispos saiam mudanças em relação ao entendimento da Igreja sobre os relacionamentos e a família. "Tem de haver um maior ajustamento e mais sensibilidade social por parte da Igreja", defende João. "Este Papa tem mostrado alguma abertura às questões da família e nos próximos anos talvez se possa olhar para casos como o nosso de forma menos negativa", acrescenta Pedro. "Entregarmo-nos um ao outro foi um gesto de amor, não uma decisão banal. A Igreja precisa de mostrar maior tolerância", remata Marta.

O que diz o catecismo da Igreja sobre o amor, o sexo e o casamento
Qual é a natureza da família? Um homem e uma mulher, unidos em matrimónio, formam com os filhos uma família.
Qual é o lugar da família na sociedade? A família é a célula originária da sociedade humana e precede qualquer reconhecimento da autoridade pública.
Quais são os bens do amor conjugal a que a sexualidade se ordena? Os bens do amor conjugal, que para os baptizados é santificado pelo sacramento do matrimónio, são a unidade, a fidelidade, a indissolubilidade e a abertura à fecundidade.
Qual deve ser o significado do sexo no casal, mesmo depois do casamento? O acto conjugal tem um duplo significado: unitivo (a mútua doação dos esposos) e procriador (a abertura à transmissão da vida). Ninguém deve quebrar a conexão inquebrável que Deus quis entre os dois significados do acto conjugal, excluindo um deles.
Quais são as ofensas à dignidade do matrimónio? O adultério, o divórcio, a poligamia, o incesto, a união de facto (convivência, concubinato) e o acto sexual antes ou fora do matrimónio.
Qual é o desígnio de Deus acerca do homem e da mulher? Deus, que é amor e criou o homem por amor, chamou-o a amar. Criando o homem e a mulher, chamou-os, no matrimónio, a uma íntima comunhão de vida e de amor entre eles, "de modo que já não são dois, mas uma só carne" (Mt 19,6). Abençoando-os, Deus disse-lhes: "sede fecundos e multiplicai-vos" (Gn 1,28).
Quais são os efeitos do sacramento do matrimónio? O sacramento do matrimónio gera entre os cônjuges um vínculo perpétuo e exclusivo. O próprio Deus sela o consentimento dos esposos. Portanto o matrimónio concluído e consumado entre baptizados não pode ser nunca dissolvido. Este sacramento confere também aos esposos a graça necessária para alcançar a santidade na vida conjugal e para o acolhimento responsável dos filhos e a sua educação.

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