A melhor escola do mundo

Inês Teotónio Pereira , i-online 24 Nov 2012
Enquanto a escola for vista como uma instituição estática que tem como referência o passado e só o passado, o futuro irá sempre surpreender
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Existe uma escola que nos últimos anos desenvolveu um projecto inovador, arrojado e estranho que deixou embasbacada toda a comunidade. Imaginem que a direcção desta escola resolveu construir uma cozinha para as crianças brincarem e aprenderem culinária no jardim da escola, lá fora. Estranho? Sim: a escola é na Islândia e o risco de a cozinha se transformar num monte de gelo do dia para a noite é real. Mas como a direcção considerou importante que as crianças estivessem em contacto com o exterior porque os islandeses passam os dias de forno em forno e raramente põem o nariz fora da porta, arriscou. Arriscou e teve sucesso. Ninguém congelou e aquelas crianças perceberem o quer dizer “vou lá para fora brincar”.
Na Índia uma escola profissional resolveu ensinar os alunos a fazerem painéis solares. Aprender a fazer painéis solares num sítio onde a electricidade não chega a todos os locais é no mínimo útil. Mas quem são os alunos? Só mulheres; mães e avós. Os homens têm mais que fazer e as mulheres daquela comunidade são tradicionalmente as engenhocas. A primeira escola do ranking americano ao pé desta escola não vale um caracol para aquelas comunidades, pois aquilo que as mulheres aprendem lá serve para que as suas aldeias tenham energia, bastando para isso um investimento inicial (financiado pelo QREN lá do sítio), já que a manutenção dos painéis será assegurada pelos proprietários.
Salman Khan formou-se em Matemática e Engenharia no MIT e em Harvard. Começou por dar explicações a uma prima e como tinha pouco tempo gravava as aulas e publicava os vídeos na internet. Começou com a prima, até que o número de visitas chegou aos milhares. Então despediu-se do emprego e dedicou-se à causa do ensino. Não teve de fazer parte de nenhum grupo de recrutamento, ou sindicato, não é professor contratado nem vinculado e também não se rege pelo estatuto de nenhuma carreira docente. Simplesmente dá aulas de Matemática e de Ciências através da internet. E fá-lo bem a quem assistir. A qualidade é garantida pela procura: através do Google, a Khan Academy ganha milhões de dólares pelas apresentações alojadas no YouTube. Bill Gates diz que os seus filhos são formados pela Khan Academy, do professor do Bangladesh.
Qualquer destas escolas – ou métodos de aprendizagem – é a melhor do mundo de cada um dos seus alunos. Porque a melhor escola do mundo depende de muita coisa. Por exemplo, no meu caso a melhor escola do mundo para o meu filho mais velho é de Artes, com especial enfoque no Teatro e deve privilegiar a iniciativa e a criatividade.
Já a escola ideal de outro dos meus filhos é grande e competitiva, virada para as Ciências e para o Desporto. Onde o importante é o rigor, a disciplina e os resultados académicos. Ou ele adormecia nas aulas. E tenho mais escolas melhores do mundo para cada um dos meus filhos. Depende. Depende da natureza de cada um deles e da minha perspectiva sobre aquilo que poderá ser o futuro de cada um deles num mundo do futuro que eu desconheço.
E é assim que cada um de nós devia olhar poder olhar para a escola: como várias melhores escolas do mundo. Porque não existe uma.
Mas enquanto a escola for vista como uma instituição estática que tem como referência o passado e só o passado, o futuro irá sempre surpreender. Com a agravante de que só aqueles que podem pagar é que podem suavizar o embate; quem não pode sujeita-se ao centralismo da escola pública, à ideia que o Estado em cada momento imagina ser o futuro. Por isso é que a autonomia das escolas, a diversidade dos projectos e a liberdade de escolha são tão determinantes: o Estado deve disponibilizar a oferta – as diferentes ideias e projectos – seja ela pública seja privada; as famílias devem poder escolher a melhor escola do mundo para os filhos seja qual for a sua condição económica. Chama-se a isto democracia e igualdade de oportunidades.

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