Os coitadinhos e os outros

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Observador 23/1/2016

O exemplo de optimismo e esperança de uma mulher de armas, numa cadeira de rodas. Um gigante, apesar dos seus 97 cms de altura. Uma mulher inteira que já partiu mais de 90 vezes os seus frágeis ossos

Há os coitadinhos e os outros. Uns e outros têm aleijões no corpo, por vezes profundos, incuráveis, mortais. Mas uns, os coitadinhos, vivem da comiseração dos familiares e dos amigos, da compaixão pública. Entregaram-se à desgraça e fizeram dela a sua filosofia de vida. Os outros, não.
Esta história não é sobre os coitadinhos, mas sobre os outros, ou seja, aqueles para quem as maleitas não são pretexto para uma existência lamurienta, nem para uma compadecida ociosidade. Os outros entendem que, apesar das suas limitações, há um combate a travar todos os dias. Não vivem das esmolas que poderiam mendigar, porque ganham a vida com o seu trabalho. E é de crer que, um dia, também ganharão o céu.
A Mafalda Ribeiro não é uma coitadinha. É dos outros. É uma mulher de armas, embora sentada numa cadeira de rodas. Uma gigante, apesar dos seus muito escassos 97 cms de altura. Uma mulher inteira, de uma só peça, mas que, à conta da osteogénese que padece desde que nasceu, já partiu mais de noventa vezes os seus frágeis ossos. Sofre dores permanentes, mas irradia optimismo e esperança. Decididamente, não é uma coitadinha, mas uma lutadora que chegou, por mérito próprio, ao pódio dos vencedores da vida.
Como conseguiu esta proeza? Graças à sua fé – “sou cristã convicta e essa crença fez com que, por exemplo, nunca me considerasse um acidente do cosmos” – mas também à sua família e educação: “Fui muito amada e muito desejada, o que me ajudou a aceitar-me como sou. Transformei as minhas fragilidades em forças”, disse numa entrevista à Visão, no último dia do ano de 2015.
A sua palavra preferida é “obrigada”: “Eu acordo de manhã, abro os olhos e a primeira coisa que eu vejo é esta cadeira (de rodas) eléctrica. E depois penso: obrigada por mais este dia”. Nem sequer a incomoda saber-se dependente dos familiares e amigos: “A minha atitude perante isto é de enorme gratidão. O facto de ter tão boas pessoas, genuínas, que me ajudam (…) é uma bênção na minha vida”. Por isso também, confessa: “Eu nunca tive pudor em pedir ajuda, nunca vi isso como uma humilhação. Não estou à espera que os outros percebam que eu preciso de ajuda e se ofereçam”.
Não obstante a sua condição física, a Mafalda não tem uma atitude passiva: entende as limitações como um desafio a superar. Na sua vida não há tempo, nem vagar, para as lamentações: “Eu fui para a faculdade, vou para a discoteca, para a piscina, para a praia, viajo, ando de mota, de mota de água, balão de ar quente… nunca deixei de fazer absolutamente nada. Estar dependente de alguém não me aprisiona. As minhas limitações não determinam os meus limites”.
E as suas dores constantes? Surpreendentemente, para Mafalda são apenas um detalhe, “porque a dor é algo que tu não controlas, mas o sofrimento é opcional” … Porquê? Porque Deus lhe deu, como reconhece, uma “capacidade fantástica” de se conseguir “esquecer de todas as coisas más”. Explica-se melhor: “Ou seja, eu tenho sempre dores e tenho de tomar anti-inflamatórios todos os dias”, mas “não me deixo ficar na dor. Continuo a agradecer, até as dores. Não posso mudá-las, posso decidir o que vou fazer com elas. Não pergunto porquê à dor, pergunto para quê”.
Mas há algo que Mafalda sofre com dificuldade: a falsa compaixão dos que, para aliviar a sua situação, quereriam eliminá-la. Doeu-lhe que alguém, que um dia encontrou no elevador, dela dissesse:  “mais valia que Deus a levasse”. Confessa até, em jeito de desabafo, que “foi uma das coisas mais difíceis” que ouviu em toda a sua vida. Detesta a crueldade, mesmo quando oculta sob uma aparência de comiseração. Não será o caso de muitos ‘piedosos’ adeptos da interrupção voluntária da gravidez, por má-formação genética, ou dos que, por ‘compaixão’, defendem a eutanásia, para pôr termo a uma existência dolorosa?!
Mafalda Ribeiro é “completamente contra a ideia de que os deficientes ou são coitadinhos ou são uns heróis”. Não ignora os perigos de um excesso de autoconfiança, nem quer passar por ser uma “Def maravilhosa”. Mas tem fé em Deus, nos outros e em si mesma. Há quem pense em tragédia e horror quando se fala de deficiência, mas Mafalda desmistifica essa sua circunstância: “antes de ser deficiente, ou portadora de deficiência, sou pessoa. Isso é só uma condição – minha e de muita gente em Portugal e no mundo – mas não é o que me define”. Uma fé confiante e alegre, que a leva a aceitar a sua situação e, mais ainda, a dar-se aos outros, esquecendo-se de si própria: “Quando vives para os outros e percebes que tens de servir um propósito que é maior do que tu, não há palavras para descrever essa alegria”.
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