Ainda Abril
ALBERTO GONÇALVES, DN 2014.05.04
Onde é que estava no 25 de Abril? A resposta ideal, porque a mais susceptível de irritar os beatos, seria a fornecida por Serge Gainsbourg quando lhe perguntaram o mesmo a propósito do Maio de 68: numa suite do Ritz. Desgraçadamente, seria também uma resposta mentirosa. No 25 de Abril de 1974 tinha 4 singelos anos e estava em Matosinhos, em casa da minha avó, a ouvi-la falar com a vizinha acerca de "qualquer coisa" que se passava em Lisboa. E a ver o meu pai chegar para o almoço, transtornado de alegria, com os dedos em V e a gritar "Liberdade!". Já no dia 25 de Abril de 2014 estava de férias em Los Angeles, a gozar os privilégios do capitalismo internacional e a sorte de uma vida por enquanto desafogada. Em teoria, parece facílimo atribuir as circunstâncias da data recente aos acontecimentos da data remota. Na prática, a relação é muito menos linear.
Não duvido de que, sem o golpe de Estado ou "qualquer coisa" similar, não poderia gozar da exacta liberdade de expressão que permite aliviar-me de uns palpites e, ainda por cima, ser pago por isso. O drama é averiguar até que ponto o dito "movimento dos capitães" existiu para que eu, e os portugueses em geral, pudéssemos usufruir da possibilidade de tais benesses.
Pela parte que me toca, a experiência não é animadora. A cada semana sou brindado com insultos de sujeitos muito devotos de "Abril" que, precisamente, gostariam de censurar todas as opiniões que, por diversos motivos, não lhes são simpáticas. De resto, e alargando a conversa, não há cidadão desconhecedor da expressão "Não foi para isto que se fez o 25 de Abril", a qual assume que a "revolução" (termo tecnicamente equívoco) possuía um propósito específico. Se este fosse apenas a instituição de um regime democrático, onde através do voto a população escolhesse acertada ou desastradamente o seu destino, não haveria problema. O problema é que o propósito do 25 de Abril e a concepção de democracia em causa variam de acordo com o respectivo preponente.
Para uns, haveria que implantar uma democracia do tipo soviético, que contornasse a maçada das eleições, despachasse directamente com o Politburo e entregasse o poder ao PCP a título vitalício. Para outros, Portugal carecia de uma democracia do tipo "popular", com abundância de plenários, sessões de esclarecimento, intervenções culturais e folclore. Para uma terceira via, o regime aceita-se excepto pelo facto de o PS e as Grandes e Magnificentes Personalidades do PS não vencerem por automatismo e merecimento divino todas as eleições realizadas nestas quatro décadas. No fundo, os donos da memória de "Abril" também gostariam de deter a propriedade das consequências de "Abril", pelo que celebram a primeira e abominam, com intensidade diversa, as segundas.
Se não se importam, prefiro as segundas à primeira. A acreditar na amargura dos nostálgicos, o 25 de Abril representou uma tentativa de substituir uma ditadura velha por uma ditadura nova em folha. Por sorte, e intervenção de uns poucos, o processo não correu conforme previsto e desaguou no "sistema" vigente. O "sistema" é socialmente imaturo, economicamente débil e politicamente corrupto? Claro que sim, mas as alternativas teriam sido bastante piores, com a agravante de não nos deixarem dizê-lo em letra de forma. Apesar de tudo, é melhor festejar o 25 de Abril de 2014 do que o de 1974. E o meu pai, que na entusiástica recepção a Cunhal percebeu a tramóia que nos preparavam, concordaria de certeza. Infelizmente, o meu pai morreu entretanto. Felizmente, a tramóia morreu antes.
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