A beleza enquanto harmonia entre mundos

José Luís Nunes Martins
i-online 2013-11-16

A criação artística não é um ato isolado mas um processo... não é um rasgo súbito mas um trabalho árduo que consome forças e talentos. Leva tempo, extrai-se da vida. É um trabalho de amor. Como quem cria um filho...
Existem vários mundos. O natural, o íntimo pessoal, o humano e o absoluto. Cada homem vive em todos.
Cada mundo tem os seus conteúdos, formas e lógicas.
Começamos, como crianças, por reproduzir no nosso mundo os aspetos do mundo exterior que nos parecem ser importantes... brincamos às aparências. Aprendemos a imitar e a criar. Depois, passamos a deixar-nos tocar mais profundamente por detalhes do que nos cerca e criamos para nós mesmos representações livres onde os elementos da realidade que valorizámos se fundem numa ordem nova... Os artistas são quem se faz capaz de trazer estes pedaços de beleza do seu mundo até ao nosso, o de todos. Alargam o possível. Criam mundo através do amor com que se dão.
A criação dá-se entre a impressão e a expressão. Pela primeira, alguém sente a realidade no seu íntimo, é tocado pelo que há no mundo. Pela expressão (artística) leva-se a intimidade ao mundo, entregando-lhe o que há de belo no fundo de si. Uma respiração de dar e receber. O artista inspira-se no mundo, cria, e depois oferece-se, qual fonte de um sublime que é tão seu quanto do absoluto.
O belo é uma harmonia que o artista define entre os vários mundos. Liga-os. Revela que o interior de cada homem têm profundidades que tocam nas profundidades dos outros, que há um caminho simples por onde chega ao mais profundo do outro... e assim, na admiração da vida em geral emerge a certeza de que há um caminho por onde se chega ao essencial. Pressentindo-o a cada passo a verdade do amor. Como se o esplendor da beleza fosse a estrela que orienta o caminho.
A arte é a produção de objetos capazes de levar prazer verdadeiro à sensibilidade humana. Seja com palavras, pedras ou formas, a experiência artística é um prazer verdadeiro que resulta da capacidade de encontrarmos as pontes entre os diferentes mundos... o que há de mim no outro? e do outro em mim? o que tenho de natural? e de divino? sou parte essencial da natureza? e da divindade? o que há de comum em tudo?
Deixar-se tocar pelo mundo é uma arte, ao alcance de todos. Quem com a beleza se encontra... nela se descobre.
A criação artística não é um ato isolado mas um processo... não é um rasgo súbito mas um trabalho árduo que consome forças e talentos. Leva tempo, extrai-se da vida. É um trabalho de amor. Como quem cria um filho...
Escultores, pintores, poetas e músicos, tal como espelhos, revelam-nos o homem a si mesmo... expondo a fonte da nossa própria vida, o sublime que nos anima.
A vida de um homem é sempre a sua obra-prima. Faz-se de gestos autênticos, razões e afetos, sonhos e fé, numa unidade tão original quanto valiosa....
Depois da criação, há que compreender que a arte escapa às mãos de quem a criou, voará por si só... e chegará longe... tocará outros que hão de, talvez, reproduzi-la no seu íntimo... integrá-la em si.
A beleza é sempre simples e boa. O esplendor da vida é a generosidade imensa com que nos presenteia de momentos de outros mundos... um detalhe com 2 pedras, a ideia de 2 palavras, um silêncio entre 2 notas... um sorriso, um toque, um olhar.
É a imaginação que precede e determina o real.
Na arte, a sensibilidade funde-se com a espiritualidade. Compreende-se que todos os mundos são um só... e que o caminho, a verdade e a vida que há em cada uma das mais pequenas partes é, afinal, o amor!

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