As crianças e a polícia

Inês Teotónio Pereira
ionline em 23 Nov 2013 - 05:00
Os pais e as mães não vivem lado a lado com o perigo, não prendem os maus, não perseguem terroristas e não sabem o que é a vida para além do sofá, do trabalho e do trânsito

As crianças gostam de autoridade. A autoridade dá-lhes segurança. Nenhuma criança se importaria de viver num regime totalitário desde que tivesse televisão por cabo e uma bola. Elas são assim. Desde que o seu cantinho esteja segurinho, está tudo bem. Gostam de ordem e de ordens. Refilam, mas não conseguem viver sem elas. Precisam de alguém que as mande para a cama, que as obrigue a comer a sopa, que lhes dê uma palmada de vez em quando, que lhes mostre os limites e, acima de tudo, que as proteja - que as proteja do papão, das bruxas, do reguila da escola, dos ladrões ou do irmão mais velho. Sem esta autoridade e imposição de ordem, elas sabem que num instantinho viravam anarcas. Anarcas que passariam o dia debaixo da cama com medo dos fantasmas e do homem do saco.
É por isso, por terem este instinto social de sobrevivência, que as crianças deliram com qualquer pessoa que exerça autoridade e que a exerça com mão pesada. Basta visitar o corredor dos brinquedos nos supermercados para se perceber este fanatismo e espírito bélico. As crianças são tudo menos pacifistas. Elas gostam mesmo é de soldados, de xerifes, de justiceiros e de super-heróis. São peritas em armamento, em estratégias de combate, em artes marciais e em ataques bombistas. Até os escuteiros se fardam de soldadinhos - não tivessem eles esta farda e já não existiriam escuteiros no mundo.
As pessoas que as crianças mais admiram não são os pais ou as mães, são os militares, os polícias e o Cristiano Ronaldo. Os pais e as mães não têm armas, não marcam golos e não sabem jogar tão bem como eles ao Assassine Creed na play station. Os pais e as mães não vivem lado a lado com o perigo, não prendem os maus, não perseguem terroristas e não sabem o que é vida para além do sofá, do trabalho e do trânsito. No fundo, são uns mariquinhas. Elas acham genuinamente que os polícias, os militares e o Cristiano são muito melhores, merecem muito mais respeito do que os pais e as mães, que até dão a vida por eles. É por isso que grande parte dos rapazes querem ser polícias ou militares quando forem grandes. Querem ser heróis. E para serem heróis têm de ter força e eliminar os maus do planeta. Querem proteger os mais fracos porque eles vão ser os fortes. É o bom contra o mau. A glória contra a derrota. A força contra a injustiça. É assim desde que começam a brincar com os primeiros carrinhos de polícia, com os primeiros soldados em cenários de guerra e quando disparam o primeiro tiro da bisnaga.
A justiça, no entender das crianças, está do lado de quem tem farda, de quem tem pistola e de quem anda numa mota ou num carro que tenha sirenes - elas sonham andar num carro de polícia com as sirenes aos gritos. O bem não está nas igrejas, está na acção dos agentes da justiça, daqueles que exercem a autoridade, que mantém a ordem, e em actos concretos que passam por perseguições, por lutas, por neutralizar os maus. É simples. Era simples até ontem. Ontem os meus filhos viram polícias a empurrar polícias. Ontem, os meus filhos viram o mundo deles virado do avesso. "Porque é que eles estão a lutar?", perguntaram eles. "Onde estão os maus?" A minha sorte é que tudo se passou às portas do parlamento por isso foi fácil explicar que era "política". Nada mais. Os polícias continuam a ser os bons. Claro.

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