E o resto?

MIGUEL ESTEVES CARDOSO Público 04/06/2015

Na maldade do luto apeteceu-me pedir que completassem a frase. "Os meus sentimentos... quê? Então e o resto?"
Há vinte anos, quando morreu o meu pai, dizia-se: "Os meus pêsames." É feio. É pesado. Mas, quando se está de luto, as coisas pesadas (e as leves) fazem companhia.
Agora dizem-me: "Os meus sentimentos." É mais bonito. Mas continua a faltar um verbo qualquer. Quem diz "os meus sentimentos" diz "as minhas emoções", "as minhas lágrimas" ou "as minhas ideias".
Na maldade do luto apeteceu-me pedir que completassem a frase. "Os meus sentimentos... quê? Então e o resto?" Será, por exemplo, "Os meus sentimentos por si são de compaixão e solidariedade"? Ou "Os meus sentimentos estão a dar cabo de mim"? Ou "Os meus sentimentos só eu é que sei quais são"?
"Os meus sentimentos" são o sujeito de uma oração a que falta, no mínimo, um predicado e, na mais liberal das expectativas, um complemento directo.
O que se responde a "os meus sentimentos"? "Os meus agradecimentos?" Mas quais são os sentimentos de que estamos a falar?
A língua portuguesa tem muitas saudades dos verbos. "Sinto muito" ou só "lamento" dizem mais do que um artigo definido, um pronome possessivo e um substantivo. Até um só substantivo ("Que pena!") é melhor.
Ainda por cima os sentimentos atrás da fórmula "os meus sentimentos" são genuínos e comoventes. Se calhar é: "Os meus sentimentos... têm reticências ricas."
Será que, na verdade, é "Os meus sentimentos...são de tal ordem difíceis de exprimir que o melhor é eu ficar por aqui..."?
Hoje acredito que sim. Porque até os meus sentimentos...

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