Manifesto a favor da eutanásia cristã

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA
Voz da Verdade, 20160417

Se há uma causa fracturante, como agora se costuma apelidar qualquer proposta aberrante em que todos, dos mais revolucionários progressistas até aos mais reacionários conservadores, estão de acordo, essa é, indiscutivelmente, a eutanásia. E tão extraordinária coincidência deve-se, por certo, à matriz cristã da cultura nacional.

Com efeito, quem não quer uma boa morte?! Pois é isso mesmo que este vocábulo, de origem grega, significa etimologicamente, muito embora sejam variadas as acepções que, no léxico sociopolítico, se oferecem ao termo, que tanto pode significar, para um crente, uma abençoada morte, como, para um incrédulo, uma morte antecipada.
Segundo um interessante estudo do Padre Dr. Jacinto dos Reis, “são numerosas as imagens de Nossa Senhora da Boa Morte”, ou seja, da eutanásia, “veneradas em muitas igrejas e capelas” do nosso país. Só “na arquidiocese de Braga elevam-se a 24, contando-se 13 altares” – número aziago este, mas só para os supersticiosos! – “e 9 capelas”.
O Alentejo regista, tradicionalmente, um elevado número de suicídios, o que talvez explique a devoção que também por lá se tem a Nossa Senhora da eutanásia, ou seja, da boa morte. Segundo o já referido perito em iconografia mariana, “no santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, distrito e arquidiocese de Évora, há um valioso e interessante conjunto escultural, em talha dourada, formado pela imagem jacente de Nossa Senhora, dentro dum barco que anjos levam para o porto celeste” e que “pertenceu ao Real Convento das Chagas”. Na sede da arquidiocese, “muito venerada é a imagem jacente do Convento do Calvário, em Évora”.
Em Lisboa, esta particular devoção mariana também está representada porque, “entre as capelas que D. Nuno Álvares Pereira deixou acabadas, no convento do Carmo, em Lisboa, uma foi a de Nossa Senhora da Boa Morte”. O autor citado não esclarece, contudo, se a mesma ruiu com o terremoto ou se, entretanto, tendo sido o antigo convento do Carmo convertido num quartel da Guarda Nacional Republicana, não terá a dita capela ‘virado’ cavalariça, picadeiro, caserna ou paiol.
Mas, que entende por uma boa morte um cristão?! Decerto, uma transição desta vida para a vida eterna análoga à de Maria, a qual, terminado o curso terreno da sua existência, foi levada em corpo e alma para o céu. A fórmula adoptada pela bula que define o dogma da assunção de Nossa Senhora não se pronuncia sobre a sua morte, pelo que cabe a hipótese de que, como o seu Filho, também Maria tenha morrido e depois ressuscitado; ou a de que tenha subido ao céu, em corpo e alma, sem ter passado pela morte. A primeira versão é a que tem mais tradição na iconografia cristã, onde abundam as imagens da “dormição” de Nossa Senhora, ou seja, da sua suposta morte antes da sua assunção. Tendo ela própria experimentado, na sua carne, esse transe, seria por isso a melhor advogada dos cristãos nessa aflitiva circunstância e, daí, a tão propagada devoção a Nossa Senhora da Boa Morte.
Enquanto os defensores da cultura da morte se propõem instaurar no nosso país a eutanásia pagã, os crentes no evangelho da vida devem promover, mais do que nunca, a prática da boa morte cristã. A verdadeira eutanásia é, para um cristão, uma morte na graça de Deus e não uma agonia sem dor, embora sejam louváveis os esforços nesse sentido, desde que não atentem contra a vida, nem contra a dignidade humana. Para este efeito, a Igreja oferece aos seus fiéis preciosos e eficacíssimos auxílios espirituais, que a nenhum moribundo devem faltar. Todos os cristãos estão também chamados a extremar a sua caridade com os seus irmãos em fim de vida, como já fazem, com inexcedível dedicação, as missionárias da bem-aventurada Teresa de Calcutá. Nessas circunstâncias, a morte, mesmo que dolorosa, será sempre vivida, não na tristeza da desgraça, mas na alegria da graça e na certeza de se estar prestes a alcançar, pela infinita misericórdia de Deus, uma felicidade sem fim.
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