Azeredo Lopes, a agenda LGBT e o desrespeito pelas Forças Armadas

André Azevedo Alves
Observador 16/4/2016

Azeredo Lopes pouparia um importante embaraço a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa se apresentasse a sua demissão, colocando assim um ponto final na triste novela que ele próprio desencadeou

Os mais recentes esforços para impor a agenda LGBT no Colégio Militar poderiam ser apenas mais um episódio relativamente marginal de actuação infeliz da “geringonça” e dos seus aliados mas, infelizmente, a intervenção absolutamente desastrosa e gravemente desrespeitosa do ministro da Defesa Azeredo Lopes fez com que a situação transcendesse em muito esse patamar. De facto, Azeredo Lopes conseguiu o feito (de duvidoso mérito) de transformar um episódio de excitação mediática propiciado por uma das recorrentes indignações do influente lobby LGBT numa lamentável novela que conduziu à demissão do general Carlos Jerónimo de CEME e afectou de forma gravosa as Forças Armadas. A gravidade da conduta de Azeredo Lopes foi bem resumida numa contida – mas afirmativa – carta aberta dirigida pelo tenente-general Garcia Leandro ao ministro da Defesa:
“Acontece que V. Ex.ª se assustou, sem qualquer razão, com as declarações do BE, tratou do assunto nos OCS órgãos de comunicação social e pressionou o general CEME para tomar decisões em área da sua exclusiva responsabilidade; claro que qualquer general sério e que mereça tal designação, sendo ainda o n.º 1 do seu ramo, teria tomado a mesma decisão que o general Carlos Jerónimo, que saiu engrandecido de toda esta triste novela.”
Tenha sido impulsionada por medo das pressões do Bloco de Esquerda ou motivada por convicções pessoais profundamente enraizadas, a verdade é que esta actuação de Azeredo Lopes foi profundamente infeliz e reveladora de um inaceitável desrespeito pelas Forças Armadas. O comportamento ofensivo de Azeredo Lopes contraria aliás uma longa tradição estabelecida no PS de respeito pelas Forças Armadas, levantando a possibilidade de, também nesta área, estarmos a assistir a um nefasto efeito “geringonça”.
Em sua defesa, Azeredo Lopes estará porventura habituado a exercer impunemente o tipo de conduta agora manifestado (basta recordar, a título de exemplo, a forma como actuou na ERC), mas ao transpor esse padrão para o relacionamento com as Forças Armadas deixou de ter condições para exercer de forma eficaz o cargo de ministro da Defesa.
As demissões recentes do ministro da Cultura e do secretário de Estado da Juventude e Desporto – juntamente com a possibilidade de ser visto pelo Bloco de Esquerda como um valioso ponta de lança para o avanço da agenda LGBT nas Forças Armadas – funcionarão neste momento como factores de sustentação de Azeredo Lopes no cargo mas o actual ministro da Defesa pouparia um importante embaraço a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa se apresentasse a sua demissão, colocando assim um ponto final na triste novela que ele próprio desencadeou.
Face à gravidade das ofensas e desconsiderações a que Azeredo Lopes os sujeitou, é de louvar a extraordinária contenção nas reacções públicas dos militares. Essa contenção constitui em si mesma uma elevada prova de respeito institucional e de sentido de serviço a Portugal. Resta esperar que os responsáveis políticos que transitoriamente ocupam cargos no executivo não cometam o grave erro de confundir essas virtudes com mansidão ou cobardia.
Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa
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