A ascensão de Maria Luís

José António Saraiva | SOL | 11/04/2016 

É habitual ouvir-se um socialista dizer: «O PS é um partido plural».
Mas será mesmo?

Onde está Francisco Assis?
Aparentemente meteu o rabo entre as pernas.
Onde está António José Seguro e todos os seus ‘fiéis’ apoiantes: Alberto Martins, Eurico Brilhante Dias, etc.?
Aparentemente, desaparecidos em combate.
Onde está o pluralismo do PS?
Plural – ‘escandalosamente’ plural – é o PSD.
É certo que Passos Coelho foi reeleito líder sem grande contestação.
Mas as grandes figuras do PSD estão com ele?
Marcelo Rebelo de Sousa está em Belém e não faz nada para ser simpático com o PSD.
Manuela Ferreira Leite vai à televisão semanalmente dizer mal da direção do PSD.
Marques Mendes quer fazer o percurso de Marcelo e faz um esforço de equidistância entre os partidos.
Santana Lopes está condicionado pelo cargo de provedor da Santa Casa, em que foi reconduzido por este Governo.
Paulo Rangel, Luís Montenegro, José Eduardo Martins vão-se guardando para o futuro – e, não querendo fazer ruturas, também não querem comprometer-se demasiado com o atual líder.
Rui Rio e Morais Sarmento não avançam nem se afastam.
Pacheco Pereira há muito que se passou para o outro lado da barricada – e António Capucho, que já não está no partido, idem, idem, aspas, aspas.
Bastam estes exemplos para toda a gente perceber que o PSD é um partido muito mais plural – e difícil de liderar – do que o PS.
Não há sequer comparação.
É neste quadro que vejo a ascensão de Maria Luís Albuquerque a vice-presidente.
Com todos os barões a dizerem mal ou a porem-se em bicos de pés, Passos Coelho não poderia prescindir de uma pessoa como a ex-ministra das Finanças.
Maria Luís ganhou muito peso político no anterior Governo – e prestígio em Bruxelas –, sendo ainda por cima daquelas pessoas que conseguem calar os adversários nos debates, pois fala com uma segurança e uma convicção que impressionam.
Acresce que, se Passos Coelho dispensasse Maria Luís Albuquerque, daria o flanco pois mostraria ceder à pressão mediática.
Passos perdeu certamente votos com essa opção, mas os líderes também se afirmam assim: contrariando a corrente.
Não indo na onda.
Recorde-se que ele próprio foi vítima de um processo nebuloso, com o caso Tecnoforma, e se começasse a deixar cair os seus fiéis acabaria isolado.
O discurso de Pedro Passos Coelho no Congresso do PSD foi saudado por – segundo se disse – inaugurar uma nova fase, em que Passos «reconheceu a legitimidade do Governo» e se «assumiu finalmente como líder da oposição».
Ora, é óbvio que Passos Coelho não pode ser um líder de oposição como os outros, pois não pode agir como se nunca tivesse sido primeiro-ministro.
Nem as pessoas se esquecem de que ele foi primeiro-ministro.
Mas não vejo isso como um problema.
Pelo contrário: Passos tem a possibilidade única de fazer oposição de outra maneira.
Sempre discordei da oposição feita aos gritos, com os líderes a aparecerem todos os dias nas TVs, parecendo constantemente em campanha eleitoral.
Ainda estamos longe de eleições – e se Passos Coelho fizesse aparições diárias chegaria lá com a imagem gasta e o discurso banalizado.
Veja-se o que ganhou António José Seguro em andar sempre numa roda-viva.
Foi aniquilado na primeira curva.
Acresce que não são as oposições que derrubam os governos, são os governos que implodem.
Este Governo não será derrubado pela oposição mas sim pelos números: quando os números começarem a aparecer é que se saberá se esta política está certa ou está errada.
Se estiver certa, a geringonça continuará a andar.
Se estiver errada, Bruxelas exigirá novas medidas – e os partidos da esquerda, em particular o PCP, não aceitarão.
E aí, sim: Passos Coelho terá de aparecer.
Há um tempo para falar e um tempo para estar calado.
Agora, que o Governo ainda está em semi-estado de graça – e em lua-de-mel com o Presidente da República – não é tempo para Passos Coelho falar muito.
Pelo contrário: muito mais importante do que falar, é saber gerir o silêncio.
Dois elefantes em lojas de porcelana
Como o Governo não tem problemas sérios para resolver, dois ministros decidiram esta semana criar mais duas frentes de luta.
O ministro da Cultura, João Soares, respondeu em termos desabridos e impróprios a um texto publicado no Público Online por Augusto M. Seabra. Resultado: um texto que passara despercebido tornou-se de repente um sucesso e João Soares deu uma péssima imagem de si próprio, acabando por pedir a demissão.
Quase em simultâneo, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, pediu explicações públicas ao chefe do Estado-Maior do Exército a propósito de um problema relacionado com a homossexualidade no Colégio Militar. Resultado: o problema ganhou uma dimensão nacional que doutro modo nunca teria, o CEME demitiu-se e o ministro nunca mais será olhado de frente pelos militares.
Soares e Azeredo mostraram não estar à altura dos cargos. Estas coisas não se resolvem assim. Mas, quando o primeiro-ministro ataca em público o governador do Banco de Portugal, os ministros sentem-se estimulados para partir a louça. 
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