Estamos todos no mesmo barco

Laurinda Alves
Observador 26/4/2016

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar. É urgente sentirmos que estamos a fazer o melhor que podemos. Nada menos que isto. Há gente a gritar e a precisar de ajuda nos quatro cantos do mundo.

E daqui ninguém sai vivo. Por isso mesmo, por estarmos todos no mesmo barco, nada nos é indiferente entre a terra e o céu, no tempo que nos é dado viver. Não estamos condenados a viver passivamente e ainda vamos a tempo de travar muitos dos desastres ecológicos e sociais que se anunciam. A Ecologia Humana, seja na vertente ambiental, familiar, social, económica ou cultural, obriga a agir, mas também a pensar fora da caixa. Existem alternativas à produção massiva, as únicas leis não são as do mercado, a ética não é uma fábula e há urgências mais imperativas do que apelar constantemente ao consumismo. Em demasiados pontos do globo a história das mulheres continua a não ter nada a ver com a história dos homens, e todos sabemos que há outras ameaças e energias para além da nuclear. Existem formas de nos alimentarmos para além da que resulta da agricultura intensiva ou das pescas ilegais que destroem os habitats marinhos e empobrecem as comunidades costeiras dos países em desenvolvimento.
A vida heroica não é um mito, e temos muitas vezes a possibilidade de optar por manter a alienação ou querer fazer a diferença.
Uma só pessoa pode mudar o mundo, sabemos isso. Sempre houve e haverá exemplos do melhor e do pior que a humanidade produz ao longo dos séculos. Homens e mulheres capazes de construir e destruir. Pessoas que começam sozinhas, mas acabam por ter o poder de influenciar e mover multidões. Para o bem e para o mal, claro. O pior é que os que se fazem explodir, assassinam, decapitam, massacram e perseguem passaram a ter muito mais protagonismo que os outros. Os que salvam e resgatam, os que cuidam e amparam têm menos tempo de antena nos media. A armadilha da indiferença apanha-nos a todos, pois aquilo que nos choca à primeira, quase nos deixa indiferentes à terceira vez que acontece. De tal maneira a realidade-real se torna insuportável aos nossos olhos que instintivamente descolamos dela. Desligamos a televisão, baixamos o som, mudamos de canal ou de sala. Abstraímos e tentamos não sentir nada, pois as dores de sentir ser-nos-iam realmente intoleráveis.
Felizmente há vozes que gritam em nós, vozes que nunca ninguém conseguirá calar. E há ecos que ficam a fazer muito eco.
Vian Dakhil, a mulher Yazidi (comunidade étnico-religiosa curda) que em Agosto de 2014 foi ao parlamento iraquiano gritar por socorro, a mulher que chorou e gritou até quase desmaiar, que levantou a voz a pedir para salvarem a sua gente de novos massacres e perseguições é uma destas vozes que teremos dificuldade em desligar. Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar este e outros gritos. É urgente sentirmos que estamos a fazer o melhor que podemos. Nada menos que isto. Há gente a gritar e a precisar de ajuda nos quatro cantos do mundo e nada nos pode ser indiferente. Pascale Warda, investigadora iraquiana célebre pela sua luta pelos Direitos Humanos, perdeu toda a sua família no genocídio de 1988, em Bagdade, e também ela podia ter morrido, mas sobreviveu e não se deixou abater. Pelo contrário, nunca mais parou de lutar e gritar. É mais uma das vozes que ficam para sempre a fazer eco em quem a conhece e ouve. Presidente da Organização Hammurabi para os Direitos Humanos, é também cofundadora da Sociedade dos Direitos Humanos do Iraque (com acção que se estende a Damasco), foi presidente da União de Mulheres Assírias e Ministra das Migrações no Governo Provisório liderado pelo representante das Nações Unidas, no Iraque. Esta mulher, que representou o Estado Iraquiano em reuniões das Nações Unidas, em cimeiras internacionais e encontros do G8, recebeu vários prémios de Direitos Humanos, nomeadamente em 2013 “por liderar a mais bem sucedida ONG na mais perigosa situação do mundo”. Esta mulher, que é um monumento de coragem, vem agora a Portugal falar sobre aquilo que a leva frequentemente a Oxford e outras universidades de referência pelo mundo inteiro. Pascale Warda estará em Évora já no próximo dia 7 de Maio, juntamente com oradores nacionais e internacionais perante quem apetece ajoelhar, tal é o exemplo que dão, tamanha é a sua coerência de vida e a sua capacidade de mudar o mundo.
Joseph Campo, norte-americano, CEO da Grassroots Films, Inc, será outro speaker deste encontro de Évora. Joe Campo, como é conhecido em Nova Iorque, trabalha há décadas com os pobres entre os mais pobres. Cineasta e músico, fotógrafo e cameraman, Joe Campo já foi nomeado para Óscares e ganhou vários prémios em festivais internacionais de cinema, na categoria de melhor documentário sobre pessoas e comunidades vulneráveis. Joe Campo sabe o que é miséria, pobreza e exclusão social, pois lida com essas realidades há mais de trinta anos. Pai de dois filhos, é membro da Ordem Terceira Franciscana e está ligado aos célebres Franciscanos que actualmente marcam as novas gerações que frequentam as actividades Catholic Underground, onde a música e os concertos juntam multidões. Existem vídeos fantásticos destes Irmãos Franciscanos a treinarem basquete no Convento e a darem um show digno das NBA Superstars, mas também a acolherem gente de todas as idades e origens nas iniciativas que juntam crentes e não crentes nos espaços Catholic Underground, em NY.
Joe Campo vem a Évora falar da Ecologia Humana a partir da sua experiência de recuperação de rapazes de rua, viciados em droga e álcool desde crianças, vítimas de abusos sexuais, mas também vítimas do abandono de pais maltratantes, alcoólicos e igualmente drogados. Tudo aquilo que se possa dizer sobre o trabalho deste e outros franciscanos é pouco para revelar a amplitude da obra humanitária que levam a cabo dia após dia, mês após mês, há anos a fio na cidade de Nova Iorque, mas não só.
A pobreza extrema e a indigência moral de milhares de crianças que moram na rua, sem família, sem absolutamente nada, sem terem que comer ou onde dormir é um dos temas mais caros dos documentários da Grassroots, de Joe Campo. “The Human Experience” e “Child 31” são apenas dois dos seus filmes mais premiados e mais vistos. Mostram a vida de crianças errantes, à beira da desistência, mas também de adultos que dão a sua vida por estes órfãos e abandonados. Ver milhares e milhares de crianças de todo o mundo serem resgatadas das ruas, da droga e da prostituição através de uma organização como a Mary’s Meals, que as alimenta e as leva para a escola, dando-lhes a certeza de poderem estudar e comer, é brutal. Crianças indianas, africanas, europeias, americanas salvas por uma organização que hoje em dia mobiliza milhares de voluntários, entre eles algumas celebridades à escala global, graças a quem a organização vai escalando a sua ajuda, apoiando cada vez mais jovens, mas também famílias e comunidades, pois a Mary’s Meals aposta no empowerment das mães, dos produtores e agricultores locais, dos pequenos e médios empresários e empreendedores que passam a fazer a diferença na economia do seu país.
Joe Campo falará sobre tudo isto e muito mais, pois tem atravessado fronteiras e acompanhado de perto esta e outras organizações humanitárias cuja acção filma e regista para mostrar noutros ambientes e palcos, onde consegue recolher fundos e prémios, mas acima de tudo criar uma nova consciência e alertar para a necessidade de angariar mais e mais apoios. Joe Campo sabe que nos terrenos que pisa, o trabalho dos voluntários tem uma gratificação imediata. You immediately help! como podemos ver nos seus documentários.
Finalmente, haverá um terceiro orador no painel internacional do Encontro de Évora: o antropólogo espanhol Luis Ventura Fernández, que tem dedicado a sua vida à causa indígena e viveu quase uma década na Amazónia com a sua mulher e os quatro filhos. Luis Ventura Fernández é um leigo missionário da Consolata que faz investigação na área da territorialidade, dos direitos indígenas e do modelo extrativo-exportador de um dos maiores pulmões do mundo, bem como dos seus impactos ambientais e sociais em toda a América Latina. Actualmente vive em Espanha, mas trabalha no Programa de Cooperação Fraterna con a Pan-Amazónia e na articulação do Eixo de Redes Internacionais e do Eixo de Investigação da REPAM, da Cáritas espanhola. Este antropólogo traz consigo um capital de conhecimento, experiências e vivências no terreno que apetece explorar, pois as suas matérias de estudo abrangem um leque muito vasto que inclui sistemas e modelos económicos sustentáveis aplicados à natureza, mas também a comunidades mais e menos vulneráveis.
No dia 7 de Maio, Évora vai ser palco de um forum multidisciplinar organizado pela CNAL – Conferência Nacional de Associações de Apostolado dos Leigos. Trata-se do 3º Encontro Nacional aberto à sociedade civil, e é interessante ver como nos anos anteriores, em Coimbra e no Porto, estes meetings juntaram mil e quinhentas pessoas (entre crentes e não crentes) em torno de grandes oradores portugueses e estrangeiros, com quem debateram mais e melhores maneiras de cuidarmos do mundo à nossa volta. Os temas deste ano partem da noção urgente de que nos cabe desenvolver uma ecologia integral, porque tal como sugere o tema geral das conferências, nada nos deve ser indiferente entre a terra e o céu. Por palavras mais populares e igualmente sábias, estamos todos no mesmo barco.
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