FELICIDADE, FELICIDADE

Clara Ferreira Alves
Expresso revista, 20151114

Gosto da alegria neste verão indiano que nos oferece a prosperidade sem preço e a mais perfeita justiça e paz sociais depois do 25 de Abril
odíamos ter começado a ser felizes há tanto tempo que não se percebe. De uma penada, ficámos a saber que a austeridade acabou, que a consolidação orçamental se mantém, que os impostos não vão aumentar, que as medidas de reforço do Estado social não têm impacto orçamental, que as privatizações podem ser revertidas, que a justiça impera e que a única reforma do Estado é o aumento dos serviços do Estado e do pessoal do Estado. Vou ter um Serviço Nacional de Saúde sustentado e equilibrado, com reforço das carreiras do pessoal, dos serviços e das instalações, tudo isto sem custos acrescidos, sem cortes e sem pagamento de taxas moderadoras. Um SNS gratuito e universal e bem ministrado, com novos cuidados e transportes, que não nos vai sair do bolso. É verdade. Enquanto o resto do mundo ocidental tenta descobrir maneiras de sustentar a Saúde, onerosa para as gerações futuras, o PS descobriu que não só o SNS não precisa de ser reformado como pode ser ampliado. O mesmo para os reforços das prestações sociais e dos apoios estaduais. Ficámos a saber que as medidas de elementar justiça social, as medidas ditas “simpáticas”, não passavam de medidas punitivas inventadas pelo antipático Governo de Passos Coelho e que podemos repor o poder de compra dos pobres e da classe média sem ferir o crescimento económico e sem constrangimento orçamental. Se bem entendi, nenhuma destas medidas, uns milhões aqui e outros ali, provocam um espirro no Orçamento e muito menos no défice. Mais, o défice anunciado pelo anjo Gabriel, que tem a cara de Mário Centeno, vai ser reduzido para menos de 3%, apesar das privatizações terem acabado de vez e de serem revertidas todas as privatizações de transportes. Pagam-se as indemnizações e pronto. A TAP voa com os anjos. A CP e a Carris entram em surplus. O Estado suportará os encargos, mais uns milhões sem importância. Fica-se com a certeza de que o Governo de Passos Coelho não era apenas incompetente, era sádico. Porque quando se põe mais dinheiro nos bolsos das pessoas mais elas gastam, e portanto se elas gastam mais a economia cresce e somos todos mais felizes.
Isto vai correr bem. Bruxelas, que teve um ataque de histeria com os gregos e os tratou abaixo de cão, humilhando-os e despedindo-os, abriu uma exceção no nosso caso. O virulento Schäuble fez um sorriso de bondade e disse que tinha a certeza de que isto ia correr bem. O probo “Financial Times”, que tinha estremecimentos com Varoufakis, olhou para Centeno e chamou-lhe “Harvard educated”, e sabemos bem que este “Harvard educated” é o equivalente a dizer “favorito dos deuses”. O pobre Vítor Gaspar, nos corredores dos fundos de Washington, foi reduzido a pó. Não acertou uma. Curiosamente, os mesmos estrangeiros que decretaram a austeridade portuguesa e promoveram a absoluta necessidade de purgar as contas portuguesas e a despesa portuguesa, os que nos condenaram por vivermos acima das nossas possibilidades, são agora os que afirmam que vivemos abaixo das nossas possibilidades.
Este pensamento mágico é extensivo a dirigentes do PS, que disseram in illo tempore que não pagávamos e não tínhamos medo de ninguém, referindo-se à dívida portuguesa. Agora, a palavra de ordem é: pagamos e pagamos tudo e nem nos passaria pela cabeça não pagar. Os que proclamavam a absoluta necessidade de reestruturar a dívida abandonaram essa pretensão e reiteram a nossa solvência e a nossa lealdade ao serviço da dívida.
Verdade seja dita que a penúria portuguesa e a agitação política portuguesa não assustam ninguém. Portugal não tem peso político ou financeiro para assustar quem quer que seja. É, como disse esse desmancha-prazeres do Varoufakis, um país tão falido como a Grécia, sem os arroubos patrióticos dos gregos. Enquanto o BCE mantiver a impressora a trabalhar, isto vai com a graça de Deus. Deve mesmo estar para aparecer a um comunista alentejano uma senhora de branco em cima de uma árvore. O convertido proclamará o povo português como povo escolhido. O Sócrates e o Passos eram dois tarados.
Eu gosto do pensamento mágico. Gosto da alegria neste verão indiano que nos oferece a prosperidade sem preço e a mais perfeita justiça e paz sociais depois do 25 de Abril. Na verdade, nunca ouvi um Governo fazer tantas promessas bonitas. Bonitas, mesmo. Centeno, Centeno, onde andavas tu com o teu plano macroeconómico? Decerto em Harvard, longe de nós, que almejamos pelo teu calor.
Reforçada pela certeza de que vamos ter um Governo de homens sábios e bons e de que os partidos de esquerda vão acabar de vez com a pobreza em Portugal sem incomodar os ricos para que eles possam investir e contratar, maravilhada com a certeza de que, enquanto pessoa pobre, o fisco vai deixar de me roubar descaradamente e o Estado vai providenciar-me velhice sossegada, tenho dormido como nunca. Passei a viver em Singapura. 
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