O fim dos exames do 4.º ano. Pior é impossível


Dizem os aliados desta medida que para escolas diferentes, leia-se situações sociais diferentes, devem existir programas diferentes. Alegam que as crianças mais desfavorecidas não têm de saber o mesmo que as que são ricas

Vítor Rainho, online, 2015.11.28
Não gosto de ser fatalista, nem tão -pouco derrotista. Acredito que por mais governos que passem, sejam de esquerda sejam de direita, a vida continua, melhor ou pior. Esquecendo o óbvio, faz-me imensa confusão ver pessoas supostamente habilitadas defenderem o indefensável. Como é possível que um dos primeiros projectos-lei aprovados pelo actual Executivo tenha sido o fim dos exames de Português e Matemática do 4.o ano? Defendem os responsáveis por tal projecto que desta forma se acaba com a angústia das crianças e que só aos seus professores compete avaliar a competência dos alunos. Mas existe outro argumento que acho verdadeiramente inacreditável. Dizem os aliados desta medida que para escolas diferentes, leia-se situações sociais diferentes, devem existir programas diferentes. Alegam que as crianças mais desfavorecidas não têm de saber o mesmo que as que são ricas. Tanto disparate junto faz -me confusão.
Andei na primária numa escola em que nas turmas se faziam as distinções por filas. A mais próxima da porta era a dos medíocres (não me recordo se não tinha mesmo o nome de burros), depois dos suficientes, dos bons e dos muito bons. Penso que havia exame do primeiro ano e os que não estávamos nas graças da professora, que se dava melhor com os meninos bem, levávamos pancada de criar bicho se déssemos um erro que fosse. Ninguém dirá que não era uma anormalidade, mas não foi por isso que deixei de ver anos depois muitos dos alunos das classes mais desfavorecidas em lugares de relevo na sociedade.
Vamos imaginar que a tese destas luminárias faz algum sentido. As crianças que agora andam no 4.o ano, separadas pela sua condição social – aos mais pobres exige-se menos, os mais ricos terão acesso a mais conhecimento... – quando chegarem à sua vida adulta e entrarem no mercado de trabalho vão pedir empregos que tenham a ver com os conhecimentos que adquiriram na sua vida académica. Os melhores empregos, obviamente, ficarão para os mais ricos. Haverá maior estupidez?
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