Costa tem os defeitos que os portugueses gostam e Passos tem as virtudes que assustam

João Marques de Almeida
Observador 5/6/2016

António Costa é óptimo a vender ilusões. Depois de quatro anos de austeridade, os portugueses estavam cansados de verdades e da realidade. Agora, querem ilusões e mentiras piedosas.
As características pessoais dos líderes políticos são muito importantes. A política é mais do que ideologias ou luta pelo poder. As qualidades e os defeitos individuais definem em grande medida o destino de um país. O primeiro-ministro e o líder da oposição não podiam ser mais diferentes. Costa tem os defeitos – ou as qualidades, depende das perspectivas – de que muitos portugueses gostam.
Em primeiro lugar, a habilidade política. Costa tem aquela esperteza rasteira de que os portugueses gostam ou, muitos que não a possuem, invejam. O modo como chegou a PM sem ganhar as eleições foi o momento alto dessa habilidade. Nas semanas seguintes, olhava-se para Costa e notava-se como ele andava satisfeito com a sua esperteza. Aquela cara, com um sorriso permanente, parecia dizer, ‘Estão a ver, perdi mas cheguei a PM’.
O facto de só ele o ter feito na história da democracia apenas reforçou a sua reputação de politico hábil. Os cronistas, os analistas e a elite de Lisboa não se cansam de gabar o “talento político” do PM. Só um talentoso pode ganhar depois de perder. O talento de transformar derrotas em vitórias é uma aspiração da maioria dos portugueses. Vejam, por exemplo, os debates ou as discussões sobre futebol. A capacidade para transformar a derrota do seu clube numa vitória moral constitui a prova da esperteza do comentador. Os portugueses têm pena dos derrotados, invejam os vencedores e admiram os derrotados que se tornam vencedores.
Passos Coelho é o oposto de Costa. Ninguém lhe reconhece “habilidade política”. A maioria dos comentadores considera-o previsível, senão mesmo aborrecido. Para aqueles que olham para a política como uma arte de tácticas hábeis e imprevisíveis, Costa é muito superior a Passos Coelho. Os defensores do antigo PM reconhecem-lhe determinação, coragem e resiliência. Mas muitos portugueses olham para o que noutras geografias seriam virtudes políticas como frieza, antipatia e distanciamento.
Se os portugueses admiram os derrotados-vencedores, gostam igualmente dos vendedores de ilusões. No fundo, é muito mais confortante ouvir um ‘mentiroso’ a prometer uma ilusão do que uma voz séria a avisar-nos sobre os perigos da realidade. Ouvimos frequentemente comentadores a dizer que o país estava cansado de um PM realista que apenas falava dos problemas e das dificuldades. O país necessitava de um líder que abrisse expectativas risonhas para o futuro, que espalhasse optimismo pelo país. Mais uma vez, Costa é óptimo a viajar de cidade para cidade para vender ilusões. Depois de quatro anos de austeridade, os portugueses estavam cansados de verdades e da realidade. Agora, querem ilusões e mentiras piedosas (os socialistas que me desculpem a evocação católica). ‘Deixem-nos sonhar’ é o grito colectivo que se tem ouvido em Portugal nos últimos meses.
Mais uma vez, Passos está no lado oposto de Costa. Não peçam ao líder do PSD para vender ilusões. Ele não o faz, nem tem qualquer interesse em fazê-lo. Para Passos, a virtude política exige que se enfrente a realidade, por maiores que sejam as dificuldades e os problemas. Costa trata os portugueses como adolescentes a quem se deve esconder notícias desagradáveis. Passos considera-os adultos que devem conhecer a verdade, por mais dura que seja. Costa ajuda os portugueses a sonhar. Para Passos, um líder deve antes de mais resolver problemas.
Por fim, Costa é especialista a arranjar desculpas e a encontrar culpados. Veja-se a táctica do governo socialista. Começaram com promessas para mostrarem boas intenções e os “valores socialistas”. A possibilidade de cumprir essas promessas é uma questão secundária. O que interessa é prometer, não é cumprir. Depois, haverá sempre más notícias, acontecimentos negativos e inesperados, e governos “neo-liberais“ para culpar. No mundo em que vivemos, haverá sempre alguém para culpar: a Europa, os mercados, ou a crise em Angola.
Passos tem uma decência, ou falta de flexibilidade (depende mais uma vez das perspectivas) que não lhe permite estar sempre à procura de desculpas. Por vezes, até assume a sua responsabilidade e pede desculpas aos portugueses. Mas para muitos portugueses, um pedido de desculpas por parte de um político soa mais a oportunismo do que a sinceridade.
Se o governo conseguir estender os últimos seis meses até às próximas eleições, Costa “o porreiro” será eleito. Se Costa acabar mal, como os seus antecessores vendedores de ilusões socialistas, Guterres e Sócrates, os portugueses voltarão a procurar um politico frio, pouco hábil e com coragem para fazer o que tem de ser feito. Não precisam de ir muito longe. Esse politico é o líder da oposição.
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