Nem se entendem sobre o que se entendem

PEDRO SOUSA CARVALHO Público 09/06/2016

Diz-me com quem votas e dir-te-ei quem és. O PS votou ao lado do PCP e Bloco. Mas também do PSD/CDS
A ideia de Ferro Rodrigues era boa. Numa altura em que Bruxelas se prepara para aplicar sanções a Portugal e a Espanha pela violação das regras orçamentais europeias, o presidente da Assembleia da República lançou aos deputados o repto de aprovarem, em plenário, uma mensagem unânime do Parlamento a condenar o eventual castigo de Bruxelas. Tendo em conta que os sete partidos com representação parlamentar concordam todos que as sanções são injustas, seria de esperar que a Bruxelas chegasse um texto único a condenar o castigo. Apesar dos bondosos esforços de Ferro Rodrigues para que se conseguisse algum tipo de consenso, vão chegar aos serviços da Comissão Europeia não um mas dois textos a condenar as sanções a Portugal, o que retira toda a eficácia à iniciativa. Se o objectivo era mostrar a união do país à volta de um objectivo comum, a mensagem que estamos a passar é precisamente a contrária, ou seja, a de um Parlamento que não é sequer capaz de se entender sobre aquilo em que se entende.
Carlos César, numa alusão à goleada da selecção nacional frente à Estónia, recorreu ao futebolês para tentar forçar o consenso: "Os portugueses podem ser adeptos do Sporting, Benfica ou Porto e não gostarem de um ou de outro. Mas quando se trata da selecção nacional, uns e outros entusiasmam-se e aplaudem pelas mesmas razões. Assim é e devia ser sobre as sanções. A Assembleia da República devia dar 7-0", afirmou o líder da bancada socialista. Seriam sete votos de sete partidos contra as sanções a Portugal.
Só que a meio do debate parlamentar, João Oliveira, líder da bancada comunista, faz uma entrada a pés juntos: "O problema em relação aos votos é que PSD e CDS quiseram impor uma opção de branqueamento do anterior Governo." Ao que Nuno Magalhães, do CDS, contra-ataca: "Se não foi possível chegar a acordo é porque o PS está nas mãos do PCP." Foi então que Carlos César achou que a melhor defesa era o ataque e resolveu fazer uma entrada faltosa ao estilo de Bruno Alves sobre Harry Kane no jogo contra a Inglaterra: "Não estamos na mão de nenhum partido (...). Mas ainda bem que Portugal já não está nas vossas mãos."
O jogo parlamentar não terminou com uma goleada de sete a zero, mas com uma derrota e várias expulsões e, em vez de um texto, chegarão a Bruxelas dois textos; a imagem de um país dividido ao meio e que não chega a acordo nem em relação àquilo em que todos concordam. Quando fui ver as duas resoluções aprovadas — o voto n.º 92/XIII (do PS, BE, PCP, PEV e PAN) e o voto n.º 93/XIII (proposto pelo PSD e CDS) —, fiquei longos minutos a tentar perceber as diferenças entre um e outro, já que à primeira vista os dois textos pareciam tirados a papel químico (ou copy-paste, numa linguagem mais moderna). No entanto, uma análise mais minuciosa mostra três diferenças. A primeira é a assinatura. Enquanto no texto proposto pela direita se assina "os deputados", no texto da esquerda quem assina são "os deputados e as deputadas". Imagino que tenha sido uma imposição do Bloco de Esquerda que queria mudar o nome do cartão de cidadão por este supostamente conter uma "linguagem sexista".
À parte esta palermice, a segunda diferença entre os dois textos é que o do PSD e CDS considera a decisão sobre uma eventual sanção "infundada, injusta, incompreensível e contraproducente", e o texto da esquerda considera-a "infundada, inaceitável, injusta, incompreensível e contraproducente". Ou seja, acrescenta o adjectivo "inaceitável". Vá-se lá perceber a relevância.
A terceira diferença nos dois textos, esta talvez com mais substância, é que o texto da direita diz que uma eventual sanção é "infundada e injusta, face aos esforços e resultados de consolidação nominal e estrutural alcançados pelo país e à grave crise económica e social que afectou Portugal". Já o texto proposto pelo PS, BE, PCP, PEV e PAN diz que uma eventual sanção é "infundada e injusta face à grave crise económica e social que afectou Portugal". Ou seja, a esquerda radical achou que assinar um texto em que se reconhecem os resultados da consolidação das contas públicas dos últimos anos corresponderia a secundar as políticas da direita.
O PS teve uma postura bastante equilibrada e perante a ausência de consenso entre direita e esquerda resolveu votar favoravelmente os dois documentos. Reconhecer o que o anterior Governo fez bem — e fez alguma coisa no capítulo da consolidação das contas públicas — só lhe dá maior legitimidade para discordar das políticas do passado quando tem de o fazer. Quando se baixa o défice estrutural em mais de seis pontos percentuais, é certo que com alguns exageros pelo meio, é porque alguma coisa de estrutural foi bem feita no período de ajustamento.
Ainda há dias, numa entrevista ao canal de televisão CNBC, Mário Centeno também saía em defesa da herança que recebeu: "A boa notícia em relação à dívida é que tem estado a cair desde 2014 anterior Governo. Fomos capazes de colocar o rácio da dívida num caminho descendente, isso é o mais importante a fazer e a manter. (...) E precisamos definitivamente que as reformas estruturais que o Governo fez nos últimos anos ganhem ritmo e tenham a possibilidade de ter impacto e aumentar o crescimento da economia." O mesmo aconteceu com António Costa, quando ainda era líder da oposição. Em Fevereiro de 2015, perante a comunidade chinesa em Portugal, reconheceu que o país estava bastante melhor do que há quatro anos. Uma afirmação que na pré-campanha lhe causou muito embaraço, mas que mostra que os socialistas, pelo menos a falar para o estrangeiro, não têm uma política de terra queimada como a esquerda radical.
Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. O PS, como um partido europeísta e responsável que é, tem andado demasiado colado à esquerda radical com a qual tem em comum apenas a vontade de reverter as medidas de austeridade que vieram da anterior governação. Às vezes de uma forma justa, outras de forma completamente leviana e irresponsável. Quando não tiverem mais nada para reverter, o que já não faltará muito, o que terá o PS em comum com o PCP e o Bloco? Quando esse dia chegar, António Costa sabe que vai precisar de virar ao centro e à direita. Não é por acaso que os socialistas votaram favoravelmente o texto das sanções do PSD e CDS. Diz-me com quem votas e dir-te-ei quem és.
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