Respeito

Henrique Raposo
Expresso, 2016.06.25

Apesar de não ligar às suas aulas, Alfredo Tinoco era o meu professor favorito. Passávamos tardes a beber imperais e a conversar num café na esquina da Av. das Forças Armadas com a Av. 5 de Outubro. Era uma tertúlia de três fellinianos: ele, eu e o meu amigo Bruno Vieira Amaral. Não falávamos da matéria ou do ISCTE, mas sim de mulheres, de romances oitocentistas, de cinema italiano, das memórias de cada um, da odisseia que ele viveu na Europa durante os anos da oposição a Salazar. O Tinoco era desconcertante por várias razões. Para começar, fundia uma voz infernal com um olhar meigo; a rouquidão prometia punição mas os olhos garantiam colinho. A meiguice era reforçada por barbas de avô oitocentista e pelo cigarro descontraído e indiferente ao fascismo higiénico. Para terminar, tinha à sua volta uma aura de tranquilidade como poucas vezes senti na vida. Apesar de ser ateu, anarquista e bombista fracassado (LUAR), Tinoco tinha aquele ar de quem conheceu o paraíso em primeira mão para depois descer à terra com o propósito de tranquilizar a malta. Quando faleceu há uns anos, eu e o Bruno colocámos nos nossos blogues um texto em sua homenagem. Muita gente ficou admirada com esta relação entre um professor de esquerda e um aluno de direita. 
Há dias, morreu o avô de um amigo. A alma que passou para o outro lado esteve sempre ligada ao PCP e o seu filho (o pai do meu amigo) também está ligado à esquerda. Contudo, quando chegou à igreja, veio ter comigo para me dizer que gosta de me ler. Estivemos à conversa. Um pouco depois, meti-me com o meu amigo, “olha que o teu pai é meu fã”. Ele ficou admirado. Expliquei-lhe que não há motivos para espanto, pois tenho bastantes leitores de esquerda. Nem estou a falar do esquerdista viciado em ódio que me lê só para ter a sua dose diária de raiva, só para fazer a sua mijinha de ódio num Twitter qualquer. Estou mesmo a falar de leitores de esquerda que gostam de me ler apesar de não concordarem comigo. 
Seja como for, o espanto gerado pelas duas cenas indicia a crescente radicalização do espaço público. Assume-se à partida que não pode haver pontes entre homens diferentes, até porque começa a ser evidente a intolerância dos millennials. Ou talvez seja mais correto falar em cultura millennial. Afinal de contas, há septuagenários que teclam com a forquilha e cinquentões que fazem autos de fé no Facebook. A intolerância está a ganhar terreno ao longo de toda a pirâmide demográfica desta sociedade cada vez mais afastada dos átomos e cada vez mais escravizada pelos bytes. E o problema dos bytes é que transformam seres humanos de carne e osso numa abstração virtual, distante e espezinhável. Quando o outro é uma abstração desmaterializada, espezinhar, bater e matar tornam-se verbos de fácil conjugação, porque deixam de colocar dilemas morais. Até um país conhecido pela sua moderação e amizade cívica, o Reino Unido, está a ser colhido pelo vírus do Facebook e Twitter. Se calhar, o meu amigo tinha mesmo razão para ficar admirado. Se calhar, as minhas filhas não vão mesmo acreditar que o pai apanhou pifos com o professor ateu que tinha lá dentro a tranquilidade do paraíso.
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