O que há de novo, meu velho

Miguel Angel Belloso
DN 2015.11.13
Passei uma semana inteira em Miami. Metade em trabalho, metade em lazer. É uma cidade esplêndida, com uma praia memorável e uns hotéis art déco acolhedores e simpáticos onde se pode encontrar diversão a qualquer hora do dia. Mas é uma cidade incómoda para nos movimentarmos de um lado para outro. Os transportes públicos, compostos por autocarros e comboios funcionam deficientemente. Não há metro, dadas as circunstâncias de se encontrar num terreno pantanoso rodeado pelo mar. Se tivermos pressa temos de nos movimentar de táxi... ou de Uber! Eu nunca tinha usado a Uber - está proibida em Espanha -, mas posso assegurar-vos que a minha experiência é que o serviço de motoristas particulares funciona com uma grande diligência e precisão, a um preço mais acessível que um táxi convencional. Os carros são muito melhores, estão mais limpos e são mais espaçosos. As pessoas que os conduzem são extremamente simpáticas, ao contrário da maioria dos profissionais do setor, e vêm rapidamente após a marcação feita através do telemóvel via internet. Conto-vos a minha experiência porque o último número da revista que dirijo é dedicado precisamente à economia colaborativa. Fazemos uma análise incisiva do processo de mudança imparável que vive a economia mundial e que acabará por afetar inclusive os modos de produção industrial. E chegamos a uma conclusão muito clara: os obstáculos normativos, a oposição judicial - através de sentenças mais do que discutíveis - a que, por exemplo, a Uber penetre em Espanha e noutros países estão a contribuir não só para deteriorar a qualidade de vida dos consumidores como estão também a desgastar a capacidade do sistema para ganhar eficácia e se transformar, incorporando tecnologias inovadoras e disruptivas.
Imediatamente após ter usado a Uber em Miami escrevi um tweet na minha conta, que pode ser consultado em @chicodederechas, a elogiar francamente a experiência que tinha tido. Tive bastantes respostas coincidentes em gabar o serviço, mas também algumas contrárias, como é normal. Muitas vinham de taxistas que se queixam de que a Uber vai acabar com o transporte público e prejudicará muitas pessoas, entre elas a corporação de que fazem parte, que investiram muito dinheiro para conseguir uma licença sem prever as consequências da mudança de hábitos que está a acontecer. A primeira parte da desaprovação parece-me descabida. O que é o transporte público? Eu penso que o transporte público é o que serve os cidadãos independentemente de quem o presta. E são os indivíduos que decidem diariamente quem o faz melhor ou pior. Eu apostei na Uber e dei-me muito bem. É muito compreensível, no entanto, que os setores implicados, como o dos táxis e o dos autocarros, protestem. São coletivos de pessoas que investiram todo o seu capital financeiro e humano num modelo de negócio que o florescimento exuberante das novas tecnologias está a destruir. E não há dúvida de que requerem um certo apoio para que possam reconverter-se até optarem por uma alternativa. O que não é compreensível é que as normas legais e os sistemas judiciais amparem as pretensões anticompetitivas dos grupos de pressão que tratam de fazer prevalecer o seu interesse particular sobre o geral.
Há uma nova economia já pujante e uma velha que resiste a ficar desatualizada e a perder os privilégios com que as normais legais e os juízes que as interpretam a continuam a tratar. A internet favoreceu a explosão de novos modelos de negócio que desafiam os tradicionais, que questionam o paradigma convencional e que enfrentam uma oposição feroz, com a esquerda - sempre em oposição à mudança - como cúmplice. Mas é uma batalha que terá um vencedor claro. Ganharão os mais eficientes, os que sejam capazes de prestar o melhor serviço ao preço mais baixo possível. O economista austríaco Joseph Schumpeter ensinou-nos que o capitalismo se caracteriza por um processo de destruição criativa: o dinamismo dos empresários introduz continuamente inovações disruptivas que minam as bases dos negócios alicerçados. É o caso já mencionado da Uber, mas também o da BlaBlaCar em Espanha - o interesse por partilhar despesas de transporte e poupar recursos posto em comum -, o do Airbnb - a intermediação em alojamentos turísticos - e outras réplicas que tenham aparecido, por exemplo no meu país, como BeMate, do empresário hoteleiro Kike Sarasola. Todas estas experiências, já de sucesso em grande parte, incipientes noutros setores, estão a ser travadas pelas corporações afetadas, pelos sindicatos e pelos políticos de esquerda, que estão a demonstrar uma maior aversão à mudança do que os restantes.
O conflito entre uns e outros, entre a nova e a velha economia - incluindo os políticos contrários ao progresso -, não deixou de se repetir desde os começos do séc. XIX. Então, os integrantes do chamado movimento ludita decidiram que a melhor maneira de conservar os postos de trabalho ameaçados pela revolução industrial, e de manter o modo de vida tradicional, era queimar as máquinas. E assim aconteceu no Reino Unido. Mas essas máquinas acabaram por triunfar porque eram capazes de multiplicar a produtividade da economia inglesa, consolidar o crescimento económico e, o que é mais importante, avançar imparavelmente para níveis de bem--estar superiores.
O processo de destruição criativa provoca vítimas. Nem todas elas inocentes. Por exemplo, os táxis parisienses, que recorreram à violência para deter a Uber, pertencem na sua quase totalidade a um monopólio que vive dos rendimentos há quase meio século e que não fez nenhum esforço para melhorar o seu serviço. Outra classe de prejudicados merece a ajuda pública. Viu-se arrastada por um progresso tecnológico que não tinha previsto, que arruinou os seus investimentos e que põe em risco o seu futuro. O Estado deveria apoiar os que perderam o seu emprego, contribuir para a sua reconversão e animá-los a empreender novas aventuras. Qualquer opção é válida menos a de deter o progresso com pretextos que, em última instância, impedem a satisfação da procura dos consumidores com a maior qualidade e ao melhor preço possível, que é a regra de ouro do capitalismo. Sem a mudança continuada que temos vivido nos últimos dois séculos continuaríamos presos em sociedades pobres, voláteis e de vida arriscada. Seria uma lástima que os políticos - e a esquerda parece liderar - se convertessem outra vez num travão ao progresso.
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