Por que falham as previsões de Gaspar e do Governo?

Henrique Monteiro
Expresso Sábado, 16 de março de 2013

As pessoas revoltam-se com razão. Não foi isto o que lhes prometeram. Pelos mapas de previsão e pelas folhas de Excel feitas no programa da troika, por esta hora já estávamos a crescer e a olhar para a crise por cima das costas.
Ontem, Vítor Gaspar apareceu, com o ar de Egas Moniz com olheiras, a dizer que, afinal, o presente é pior do que o passado previra e que o futuro não é melhor do que o presente, podendo, até, ser pior, no caso do desemprego, que lastimou com aquele ar de quem teve alguém a recomendar-lhe: "ó Vítor, diz duas palavras de pena pelos desempregados!".
Décadas de ajustamento pela frente, o dobro da recessão, mais sete por cento de desemprego, milhares de funcionários públicos para a rua... Mas como ninguém (salvo os costumeiros BE e PCP, que de tanto pedirem demissões de governos, ninguém leva a sério quando pedem, como na história de Pedro e o Lobo), como ninguém, nem o PS nem o Presidente, nem dentro dos próprios partidos da maioria, exige que Gaspar, que o Governo todo se vá embora, pregar para outra freguesia?
Só há uma resposta: porque, apesar das palavras e dos sorrisos de Seguro, de Cavaco e de outros, nenhum deles faria substancialmente diferente.
Explicado em duas palavras, temos este cenário: nenhum - e repito nenhum - dos políticos institucionais e instalados soube ler esta crise. Acharam, uns, que era um problema apenas português - e enganaram-se! Acharam outros que era um problema cíclico da Europa - e enganaram-se também! O problema, como já muitos (mas não os que mandam e os que podem mandar) disseram está num problema estrutural e histórico do Velho Continente. A Europa, como um todo - agora já com a Alemanha anémica quase incluída - está num ponto terminal. Não tem locomotiva e não sabe como resolver a difícil equação da sua sobrevivência com as bases (magníficas) que construiu no pós-guerra. A Europa enganou-se quando nada exigiu (em termos sociais) dos países emergentes, da China, em especial. E paga agora por isso.
A Europa, com raras exceções como a alemã, destruiu a sua indústria e, com raras exceções como a França, quase toda a agricultura. A Europa pensou viver dos serviços e enganou-se.
Por isso, Gaspar tem culpa e o Governo tem culpa por errar as previsões. Por ter levado ao extremo um programa irrealizável. Mas esse programa foi desenhado pelo PS (que estava no Governo quando se negociou com a troika) e abençoado por todos os outros partidos que têm mais de 70% no Parlamento.
A receita é muito mais amarga do que parecia. É desesperante. Não sabemos sair dela. Mas não há quem saiba. E quem sonha com uma vassourada geral, com uma revolução, apenas sonha em piorar bastante as coisas. Podemos ter como destino apenas o empobrecimento? Podemos, mas ninguém, nunca, quis falar disso. E os poucos que falaram foram trucidados.

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