Nós, as criaturas

Miguel Esteves Cardoso
Público 26/03/2013

É um prazer ver um rebanho. Esta semana vimos um com uma ovelha negra ainda na fase da adolescência. Os borregos saltitavam como ómegas. O verbo inglês é gambol. Em português como é? Os gatos e as raposas também fazem estas levitações instantâneas, sem balanço de qualquer espécie.
Só há duzentos e tal anos é que a grande maioria de nós não vive com os animais como vizinhos, inquilinos e, sobretudo, guardiões, garantindo a nossa sobrevivência. Aqui ao pé de nós temos o compadrio dos pombos, a indignação de gansos, o desprezo dos melros, a concorrência selvagem dos patos, as marchas dos perdigotos atrás das perdizes. Há cães abandonados - alguns sobrevivendo como fantasmas brancos - e outros que encontraram donos melhores e mais fiéis do que os primeiros.
Estão escandalosamente escondidos dos nossos olhares os animais que mais matamos e comemos: os frangos, os porcos, os novilhos, os coelhos, os peixes até. Se os víssemos vivos, mais vezes do que vemos (quase nunca), se calhar não seríamos tão vorazes. O rebanho que seguimos é a melhor máquina aparadora de relva que já vi. Os pastores e o cães são amigos das ovelhas: elas têm uma vontade geral e estúpida, como Rousseau inventou inteligente e erradamente, para as pessoas.
A Primavera é uma reabertura não só de plantas como de bichos, pessoas e climas. Junta todos os seres vivos na altura. É pena termos aprendido, entretanto, a distinguir entre eles. E entre eles e nós, como criaturas.

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