Exames do 4º ano: assim não

Catarina Almeida, Fundação Maria Ulrich, 2015.12.01
Tudo indica que, em 2015/16, os alunos do 4º ano não vão ser examinados externamente por provas comuns e centralmente elaboradas. A decisão substancial parece-me razoável; o processo que a sustentou é absurdo e demonstra desinteresse sobre o funcionamento das escolas e sobre a dinâmica de trabalho dos professores.

O 1º Ciclo é um percurso de quatro anos marcado pela figura do professor que empresta os olhos, a inteligência e o coração aos alunos que o seguem na aventura de aprender a ler, a escrever e a contar. São anos decisivos para a aprendizagem: aprende-se, em termos essenciais e elementares, a enfrentar o mundo: a relacionar-se com as letras e os números, que se transformam progressivamente em discursos e raciocínios, em diferentes linguagens e sob perspectivas diversas do conhecimento; aprende-se a pensar, a tomar posições, a relacionar-se com os amigos, a ganhar bons hábitos e rotinas; aprende-se a ser autónomo. Aprende-se tudo o que permitirá, a partir do 2º Ciclo, a densificação e especificação das matérias e dos conteúdos. Aprende-se tudo isto e muito mais. Ou não se aprende. E o factor decisivo para desencadear estes processos é, a meu ver, o professor do 1º Ciclo que tem de decidir os melhores métodos e tomar as melhores decisões para cumprir a sua tarefa.

Neste sentido, os exames nacionais do 4º ano podem introduzir uma confusão sobre a natureza do percurso do primeiro momento da escolaridade, definindo uma meta que é o exame nacional e centralizado, obrigando professores e escolas a adaptar os olhos, a inteligência e o coração a critérios uniformizados. Penso que, por outro lado, é fundamental que os alunos do 4º ano sejam chamados à consciência de terminar um ciclo e que sejam avaliados sobre os termos em que foram ensinados. A diferença está na centralização e uniformização desse processo em vez de confiar no profissionalismo dos professores que têm essa responsabilidade.

Tudo isto requer reflexão, planificação, organização. E tudo isto implica muito trabalho não lectivo dos professores, que preparam o ano seguinte em Junho e Julho, tomam decisões, fazem escolhas, abdicam de umas coisas em função de outras. Os professores que ensinam o 4º ano em 2015/16 prepararam certamente o ano, sabendo que, em Maio de 2016, os alunos seriam chamados a realizar um exame. Mudar as regras do jogo a meio é uma irresponsabilidade, independentemente da posição de fundo que se tenha sobre o tema.

Em geral, eu não acho mal que haja exames nacionais no 4º ano; só acho melhor que não haja. Ainda assim, tenho a certeza que jogar ao põe-exame, tira-exame, prejudica os milhares de alunos, professores e famílias porque os sujeita às bandeiras que os partidos vão abanando uns aos outros, em jeito de pirraça, num assunto sério demais como a educação e o ensino.
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