Ostracismo em prime time

Viriato Soromenho Marques
DN 20151216

Em outubro, o processo Sócrates estava concentrado em 12,5 gigas de informação. O que corresponde a 55 volumes e 21 954 folhas. Por mera impossibilidade física, não creio que alguém, nem mesmo os advogados de defesa, tenha tido capacidade de digerir, até hoje, toda a informação envolvida. A entrevista que José Sócrates deu à TVI não pode ser entendida como fazendo parte de qualquer "serviço público", de qualquer esforço meritório para apurar a verdade. Não se tratou, sequer, de uma autêntica entrevista, mas antes de um monólogo em que um respeitado jornalista funcionou, apenas, como marcador das pausas, tal a desproporção de acesso aos conteúdos relevantes existente entre os alegados entrevistado e entrevistador. Parecia, até, que o entrevistado usava da palavra depois de o seu processo já ter transitado em julgado, tais foram os permanentes protestos de inocência. Já em 1967, a degradação do espaço público foi denunciada por Guy Debord, na sua obra A Sociedade do Espetáculo. Neste caso, os "argumentos" alimentaram a justiça como reality show, como puro entretenimento, ou, nas duras palavras de Debord, como "droga para escravos". Mas houve mais. O show televisivo foi o palco do aviltamento de Joana Marques Vidal e do sistema judicial como um todo. Sócrates, cuja deriva histriónica é inegável, fez-nos regressar à democracia ateniense, quando não havia separação de poderes nem processos formais de investigação. Quando a condenação até do mais justo dos heróis da Antiguidade - o general Aristides (530-468 a.C.) - poderia ser induzida por um demagogo, incendiando uma multidão na ágora. Partindo bilhas, e usando os cacos como boletins de voto, no sinistro processo de ostracismo. Um péssimo serviço à democracia que nenhuma guerra de audiências pode justificar.
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