Um Nobel da Paz para Trump? Fantasia ou talvez não


DN  01.04.2018

Presidente americano reivindica papel na aproximação entre as Coreias, ainda antes do seu encontro com Kim Jong-un, dando bases para campanha para a sua candidatura ao prémio.

Horas depois da cimeira de dia 27 entre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, Donald Trump garantia em Washington: "Quando eu comecei, as pessoas diziam que era uma impossibilidade", assumindo uma parte da responsabilidade pelo encontro histórico e por uma eventual paz na península coreana. A poucas semanas de um encontro, desta vez entre o próprio Trump e Kim, a verdade é que ganha forma uma campanha para que o presidente americano receba o Nobel da Paz. E até Moon Rae-in garantiu ontem: "O presidente Trump pode ficar com o Nobel, a única coisa que queremos é a paz". Se realmente vencesse, Trump seria o quarto presidente americano a receber o prémio da Paz, três deles em funções, sendo Barack Obama, em 2009, o último.

Moon estava a responder à viúva do ex-presidente sul-coreano Kim Dae-jung, protagonista da cimeira de 2000 com Kim Jong-il, o pai do atual líder norte-coreano. Kim Dae-jung acabaria por vencer ele próprio do Nobel da Paz. Depois da escalada verbal e militar - com Pyongyang a multiplicar os lançamentos de mísseis balísticos e a realizar um sexto ensaio nuclear - a cimeira de sexta-feira está a ser vista como um avanço. Nela os dois líderes coreanos assinaram um documento em que se comprometem a pôr fim à guerra, terminada em 1953 com um armistício mas sem tratado de paz, e a desnuclearizar a península. Durante o fim de semana, Kim veio ainda garantir que vai encerrar, na presença de observadores internacionais e ainda este mês de maio o local onde Pyongyang realizou os seus seis ensaios nucleares.

Falta agora definir a data exata - fala-se que será dentro de três ou quatro semanas - e o local da cimeira entre Trump e Kim. Falava-se na Mongólia ou em Singapura como possibilidade, por serem países neutros, mas um tweet de Trump veio ontem levantar suspeitas de que o encontro se possa realizar no mesmo local da cimeira entre Kim e Moon: a Casa da Paz no lado sul da zona desmilitarizada que marca a fronteira entre as duas Coreias. "Vários países estão a ser tidos em consideração para o ENCONTRO, mas a Casa da Paz, na fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul seria mais representativa, importante e douradora do que um país terceiro? Estou só a questionar-me!", escreveu.

A verdade é que até agora houve uma cimeira realizada, abraços, apertos de mão, algumas promessas e uma cimeira por realizar. Apesar de tudo, lembra o The Washington Post, progressos mais concretos do que em 2009 quando Obama ganhou o Nobel apenas nove meses após tomar posse como presidente. Na altura, a decisão do Comité norueguês foi duramente criticada pelos republicanos e até por alguns democratas. O próprio Obama diria anos mais tarde que o prémio foi-lhe dado mais pela sua retórica inspiracional do que "pelo reconhecimento dos meus feitos".

Agora, depois de ter deixado o mundo a temer uma guerra ao trocar ameaças e insultos com Kim em 2017, Trump foi recebido num comício no Michigan, na sexta-feira à noite, com gritos de "Nobel! Nobel!". E se o senador republicano Lindsey Graham admitiu "Ainda não estamos lá, mas se acontecer o presidente Trump merece o Nobel da Paz" e o congressista Luke Messer garantiu que será ele própria a apresentar a candidatura de Trump ao Comité.

A decisão será anunciada em outubro, como acontece anualmente, em Oslo. E já por três vezes o vencedor foi um presidente dos EUA. Obama, há nove anos, foi o último. Antes dele, Jimmy Carter vencera em 2002, mais de 20 anos após deixar a presidência, pelas suas "décadas de esforços para encontrar soluções para conflitos internacionais". Woodrow Wilson venceu em 1919 pelo seu trabalho para a criação da Liga das Nações, precursora da ONU. Theodore Roosevelt, em 1905, foi o primeiro presidente americano a vencer o Nobel da Paz pelo seu trabalho para pôr fim à guerra russo-japonesa. Só iria buscar o prémio cinco anos depois, após deixar o cargo.
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