A parábola da Carolina


A vida é.... já se disse de tudo. O google disse-me hoje logo nos primeiros resultados: uma auto-estrada, um cabaret, um jogo, uma festa.*

Mas a Carolina deixou-me a pensar numa parábola. Não das narradas, mas das calculadas pela matemática: uma curva plana definida a partir de um ponto dado (foco) e de uma reta dada (diretriz). Bem calculadas, os pontos da parábola serão equidistantes do foco e da diretriz.



Já não sei quando é que a Carolina deixou de ser mais uma criança na enfermaria, para passar a ser a Carolina. Talvez tenha sido quando ela sorria para o meu filho Pedro. Foram grandes companheiros em longos internamentos, e bons companheiros em difíceis momentos. Como ao Pedro, vi-mo-la murchar, para tantas vezes voltar a sorrir. A sua mãe sempre me impressionou pela sua doçura serena no meio de grandes oscilações. 

Não é fácil ver de perto a doença, ver de perto alguém a sofrer. Quando vivemos num hospital é inevitável ver o sofrimento dos outros. Tentamos não desfocar do nosso filho e das suas dificuldades, tentamos não acrescentar, preocupando-nos com os outros, mas a Carolina e a sua mãe conquistaram-me. Por isso quando a Carolina morreu há uma semana, não fui poupada ao desgosto. Era meu em pleno direito, como ela foi minha durante o pouco tempo que a conheci. Foi me dada para eu ver, mais uma vez, a parábola. 

Para ver que a linha da vida que vem do alto, vem à terra, para voltar. O problema da distância está no regresso. O caminho parece maior, mas na verdade, é equidistante. A subida faz-se talvez com mais esforço e há a tentação de encurtar.

Mas encurtar a parábola, baralha a matemática. E a matemática não se pode baralhar. 
Se se baralha a matemática, baralhamo-nos nós, e perdemos o foco e a diretriz. 



(*)

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