A minha herança: os meus irmãos

VASCO MINA    24.05.2018     JN  
A minha mãe partiu recentemente e o mesmo aconteceu com o meu pai há cerca de dez anos. Sou agora confrontado com a tarefa de desmontar a casa onde vivi desde que nasci até me casar. Por outras palavras, tratar da herança que recebi. No meio de tantos e variados assuntos aos quais tenho de ocupar o tempo, fica, no ecoar dos dias que passam, a seguinte pergunta: qual a verdadeira herança que recebi? Qual o valor que os meus pais me acrescentaram?
Faço parte de uma geração intermédia que não pertence "ao outro tempo", mas que não acompanha no pleno os tempos que correm. Em 1974, tinha 12 anos e era o mais velho de três irmãos; os meus pais não foram militantes antifascistas e o 25 de Abril foi um grande dia: não tive aulas! Crescemos como qualquer outra família da pequena burguesia (terminologia que só bem posteriormente entendi), educados para sermos bons alunos, a respeitar os mais velhos, a cumprimentar as pessoas, a não ser "malcriado", a andar vestido "como deve ser" e a ir à missa com as avós. Ao estrangeiro, fomos duas vezes a banhos ao Sul de Espanha e férias grandes (três meses, sim, três meses) passámo-las sempre na praia Grande. Não tínhamos primos direitos (os meus pais, algo raro à época, eram ambos filhos únicos) e sempre ouvimos (sem a entender muito bem) a lamúria da falta de irmãos. Éramos uma família pequena que, por isso mesmo, criou laços muito fortes entre si. Considerando apenas os 29 anos em que estive solteiro, o meu quadro de referência familiar eram os meus irmãos, os meus pais e as minhas avós.
Quando nos casamos, "viramos a página" e os pais e os irmãos deixam de fazer parte do quotidiano das nossas vidas. Os encontros passam a ser na casa paterna e as histórias do passado passam a ter cada vez mais significado. Misto de alguma nostalgia com o desejo de não perder referenciais, passamos a dar outra importância às relações com os nossos pais e irmãos. Perde-se algum "fio à meada", mas ganha-se a vontade de estarmos juntos.
Os filhos e os sobrinhos vão nascendo e crescendo e os encontros familiares ganham outro movimento. Vão sendo cada vez mais espaçados e, por isso, cada vez mais ricos em partilha de histórias e vivências. Um dia, as avós partem e a dor é imensa. Delas ficam muitas histórias e destas as mais saborosas são as que em conjunto vivemos. Crescemos sem muita consciência do valor das vivências e só nos damos realmente conta desta dimensão no momento de uma partida...
Mas regressando ao desmontar de uma casa, muitos são os objetos que nos passam pelas mãos e, no meio da azáfama, há alguns que nos fazem sentar no sofá, pois nos "obrigam" a recordar tempos passados. São as fotos! São estas as "peças" que nos fazem viver outra vez, que nos recordam os bons e maus momentos vividos e sobretudo aqueles que mais nos marcaram. São momentos que ficaram registados ao longo do tempo, que remontam à nossa infância, mas também aos mais recentes, que passam pelas férias em conjunto, pelos encontros de Natal, por casamentos e batizados... enfim, a história das nossas vidas! Mas tirando as que são a solo, as fotos têm um elemento comum: a companhia dos pais e dos irmãos. Quando aqueles partem, estes são a verdadeira herança quando ficamos órfãos. É que os irmãos não se escolhem: recebem-se. São a doação viva dos meus pais! Fazia-nos realmente falta este dia, o Dia dos Irmãos, a 31 de maio, para celebrarmos esta herança perpétua, a festejarmos, a renovarmos.
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