Denúncias justiceiras (e sandálias)

Maria João Marques
Observador 1/6/2016

Andam por aí uns justiceiros, agora em voga no twitter, que um dia acordaram com a missão de escancarar os horrorosos truques da comunicação social contra o nosso admirável governo.

1. Este fim de semana algo assombroso aconteceu. Ou, melhor, não aconteceu. Foi fim de semana de campanha do Banco Alimentar e não vi um único dos espíritos da esquerda-progressista-laica-o-voluntariado-é-uma-treta com quinze achaques seguidos contra o papel da odiosa caridade na ajuda aos mais pobres. Fiquei à espreita e não vislumbrei um único comentário verrinoso a Isabel Jonet.
Não, não ocorreu nenhum atentado terrorista que desviasse as atenções. Foi algo muito mais catastrófico: uma manifestação participadíssima a reclamar pela continuação dos contratos de associação onde já existem e pela continuidade da vida escolar dos alunos que os frequentam.
Mas – agradeçamos aos espíritos dos participantes na segunda internacional comunista – há quem esteja bem atento às manobras desta gente que defende os contratos de associação, que é mais perigosa que os meliantes (infelizmente praticantes de infrações ainda não tipificadas na lei) que se voluntariam para os supermercados a distribuir sacos ou dividir os alimentos doados no armazém do BA. E estes vigilantes têm feito denúncias escabrosas.
Por exemplo. Uns justiceiros, agora em voga no twitter, que uma noite sonharam com Engels e acordaram no dia seguinte com a missão de escancarar os horrorosos truques da comunicação social contra o nosso admirável e venerável governo, revelaram uma conspiração de dimensões quase internacionais. A manifestação prática era o uso, por duas apresentadoras da RTP e da TVI, de roupa amarela, numa clara e poderosa mensagem subliminar de apoio aos colégios com contratos de associação. Valentes pessoas que denunciam tais ignomínias.
Outro clamor mais generalizado percorre as hostes: querem acabar os subsídios aos colégios, asseguram-nos. Ora bem, um subsídio é um montante que o estado fornece a um privado como forma de participar num investimento que de forma direta não vai beneficiar o estado. Nada do que se passa com os contratos de associação, onde o privado presta um serviço ao estado (a escolaridade obrigatória de crianças e adolescentes), que o paga. Trata-se de uma prestação de serviços como a contratação de pareceres jurídicos a escritórios de advogados (aqui o estado também adquire aos privados quando pode usar, e por vezes usa, o Ministério Público para lhe prestar serviços jurídicos), contratos de manutenção de equipamentos, de segurança dos ministérios (e existem as polícias também para isso), de limpeza, etc. Com frequência o estado compra serviços a privados que os organismos do estado poderiam fornecer. Pelo que os contratos de associação não são uma excentricidade e o seu fim não se pode justificar pelos custos nem por capacidade instalada (a ver vamos) do setor público.
Adiante. A minha denúncia preferida é o ‘ai jesus que estão a instrumentalizar as criancinhas’. Lógica inabalável. Há adolescentes nas juventudes partidárias, os alunos da escola estatal manifestam-se (sob o olhar lacrimejante do BE), o arraial gay (que é, e muito bem, um momento de afirmação política) tem uma zona para crianças, grande número de pessoas sub-18 foras avistadas já na festa do Avante, incluindo durante os comícios. Presumo que estas sejam formas saudáveis de enternecer o coração dos petizes com a participação política. Mas se se trata de colégios a explicarem aos alunos algo que lhes vai afetar a vida, é uma horripilante instrumentalização, as crianças não aguentam, não percebem, que abutres usam desta forma criancinhas?
Houve até uma invenção de umas psicólogas imaginárias que teriam andado no Colégio São João de Brito – que, ao contrário dos ditos da propaganda, não tem contrato de associação – a doutrinarem as crianças para participarem na manifestação. Circulou por todo o lado, até ser desmentida (passou-se num colégio onde toda a gente sabe quem é o quê – eu estudei lá), mas afinal não eram psicólogas, eram quiçá objetos voadores não identificados. Os dois deputados do costume – João Galamba e Tiago Barbosa Ribeiro – publicitaram a falsidade via twitter mas não, claro, o seguimento.
Há pormenores mais negros. No Geringonça, o blogue ‘se fores capturado, nego que te conheço’ do governo, voltámos aos métodos socráticos da intimidação. Ameaça claríssima aos colégios com contratos de associação: ou se calam já ou há pedido de devolução do dinheiro que o estado já pagou – inclusive vários governos socialistas:
‘Caros amarelos  isto tem como consequência não só a proibição dos referidos auxílios para o futuro, mas também a devolução de todos os montantes indevidamente recebidos no passado. Sim, é a bomba atómica. Podemos estar a falar de devolver décadas de subsídios indevidos. De insolvência até.  Talvez fosse então aconselhável deixarem as inventonas contra o Ministro da Educação e outras manobras quejandas e portarem-se como meninos crescidos, antes que a Comissão venha por aí com a bomba atómica.’
Reparem: a Comissão só se tornará uma fera se continuarem a ofender o ilustre ministro: ‘Pode é acontecer que um dia alguém se aborreça e faça uma queixa à Comissão e, aí sim, teremos o caldo entornado…’
José Sócrates deixou discípulos.

2. Um apontamento final. A secretária de estado do Turismo – que também teve direito ao seu momento ‘por favor não abasteçam gasolina em Espanha’ – pediu-nos que passássemos férias em Portugal. E que não comprássemos importações.
Ora quanto às férias, lá em casa preferimos uma decisão familiar. Quanto às importações fiquei muito sobressaltada. As complexidades do mundo globalizado dão nisto. O ano passado comprei umas sandálias lindas de uma marca italiana que haviam sido fabricadas em Portugal. Estas sandálias contam como importação ou não? Posso repetir compra semelhante? Aguardo ansiosamente instruções do governo.
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