De novo, a maioria silenciosa. Venha ela

PAULO RANGEL Observador 31/05/2016

Governo, BE e PCP não se livram da fama de mudarem as regras a meio do jogo.

1.  O movimento Escola.Ponto pode ter mais ou menos razão quanto à legalidade substantiva, ao modelo administrativo escolar e à compreensão (que nunca é uniforme) do que seja o interesse público. Há decerto um item em que tem inteira razão: o Estado deve cumprir os seus compromissos. Longe vão os tempos em que Costa proclamava a plenos pulmões: “palavra dada, palavra honrada”. O Governo, o Bloco e o PCP podem gritar e espernear, mas não se livram da fama e do proveito de, contra a lei e a ética republicana, mudarem as regras a meio do jogo.

Valha a verdade de que o movimento amarelo da Escola.Ponto, sem sindicatos nem partidos de alavanca, se tem mobilizado por todo o país e, para quem diz que corporiza um nicho de pequena expressão, foi capaz de fazer uma impressionante manifestação no Domingo. Interessa-me porém de sobremaneira um ângulo totalmente diverso daquele subjaz à essência dessa luta. O conjunto de pessoas que aparece nas manifestações de protesto do Escola.Ponto não corresponde, em nenhum dos seus traços, ao tipo dominante daqueles que integram os habituais movimentos de protesto. Não tem a mobilização ensaiada e repetitiva do PCP, não exibe a força e o músculo das manifestações da CGTP, não ostenta a criatividade e a provocação (muitas vezes pouco numerosa) do Bloco e de alguns movimentos fracturantes, não aparenta a cadência resignada das organizações da UGT. Tem algo de muito mais espontâneo e artesanal, tem algo de muito mais genuíno e experimental, tem algo de paradoxalmente leve e alegre. As pessoas que integram esta vaga de protesto não são as mesmas que fazem e fizeram os protestos a que estamos mais acostumados. Elas fazem parte daquilo a que se poderia chamar, sem abuso, a maioria silenciosa. Uma maioria que, já há mais de quarenta anos, fez imenso pela implantação de um regime moderado, plural e tolerante. Muitas destas pessoas são hoje, aliás, abstencionistas militantes, desencantados que estão da política e dos políticos. Fazem parte daquele enorme maioria de portugueses que não acredita em radicalismos, em intolerâncias, em fundamentalismos e cegueiras ideológicas, de travo ressentido, assaz vingativo, punitivo ou revanchista.
2. Já aqui disse, por mais de uma vez, que está por fazer a história dos movimentos moderados que, nos idos de 1974-1976, fizeram frente à ameaça ditatorial do PCP e da extrema esquerda. Há alguns estudos sérios e cuidados sobre o papel do PCP, dos seus dirigentes e da sua correia do comando soviética. E há um interesse evidente pelo lugar dos grupúsculos de esquerda radical, as suas múltiplas cisões e divisões, os seus ódios de estimação. Mas continua por estudar e valorizar o papel das classes médias urbanas e rurais que formaram as associações de pais em todos as escolas, que alimentaram células paroquiais e grupos católicos, que encheram praças e avenidas em manifestações políticas e em actos cívicos. Lembro-me de ir com os meus pais dezenas de vezes à Avenida dos Aliados, onde se concentravam centenas de milhares de pessoas, de todas as idades e provindas de todo o Norte, para censurar Corvacho ou Fabião e para apoiar Pires Veloso e Ramalho Eanes. E que para o fazer esta mole humana passava por barricadas violentas e por montes de pneus a arder. E que o fazia, expondo crianças e velhos, a riscos e a impropérios. Contra o advento de uma nova ditadura, contra a ameaça do radicalismo, contra a perversão da promessa que significara o 25 de Abril, a maioria silenciosa fez barulho, produziu ruído, fez-se notar e conseguiu inverter o rumo dos acontecimentos.   
3. Onde muitos vêem apenas o eclodir de um movimento “social” de alcance curto e corporativo – o da defesa dos supostos “privilégios” de meia dúzia de colégios –, não excluo que possa antever-se muito mais. O primeiro sinal que não deve ser descurado é o do apoio expresso da Igreja Católica que, raras vezes – mesmo em questões morais que se poderiam tomar por muito mais relevantes para a sua doutrina – tem apoiado a organização das manifestações. Basta comparar a actuação da Igreja portuguesa com a da Igreja espanhola ou francesa nessas ditas questões morais para ver como, nesses assuntos, a hierarquia católica lusa tem sido discreta. Mas sintomaticamente, neste tema, aceita apoiar acções de rua. O segundo sinal é a forma como o Presidente da República, mesmo fazendo apelos à paciência, não deixa cair nem morrer o tema. E, de algum modo, pelo seu estilo inovador, bem-disposto e heterodoxo inspira o estilo de intervenção daqueles manifestantes.
4. Pois bem, os portugueses estão cansados de sacrifícios e de austeridade. E nisto tem razão quase toda a gente. Mas há uma larga maioria – moderada, sensata, realista – que não está disposta a passar por novos sacrifícios nem por novo resgate. Uma maioria que quer subir na escala social, que quer melhorar os seus rendimentos e a sua perspectiva de vida, mas não quer, de modo nenhum, desperdiçar todo o esforço que foi obrigada a fazer desde 2010-2011. Esta maioria silenciosa – perante as reversões sistemáticas, a devolução relampejante de rendimentos aos funcionários públicos, o regresso da discriminação das 35 horas, a baixa das exportações, o aumento do desemprego, a associação cada vez mais forte de Portugal à Grécia, a iminência (injusta e inaceitável) de sanções, a falta de credibilidade que mata o investimento – não vai ficar queda e muda.
Talvez António Costa não tenha percebido. E o PCP e o Bloco, formados no marxismo, até gostem e delirem. Mas as manifestações da Escola.Ponto podem ser apenas o início: o início de um progressivo movimento da sociedade civil que quer o fim do radicalismo, do “reversionismo” e do revanchismo. Que quer viver melhor, mas com passos seguros e prudentes. Que não quer deitar pela borda fora o esforço brutal que fez nos anos que passaram. E Costa passará a ter, em cada visita de propaganda, a sua Grândola Vila Morena.
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