A ascensão do animal e a decadência do valor da pessoa

Ana Sá Lopes | ionline 2016.05.17

Há um poema muito antigo de Sophia de Mello Breyner, chamado “As pessoas sensíveis”, que começa assim: “As pessoas sensíveis não são capazes de matar galinhas/ Porém são capazes de comer galinhas.” Lembro-me muitas vezes dele a propósito da recente ascensão na sociedade atual do animal em detrimento da “pessoa” ou, se preferirem, da “pessoa humana”. Tendo em conta os últimos desenvolvimentos, é provável que falar em “pessoa humana” deixe de ser uma redundância.

Vem isto a propósito do aumento de penas relativamente aos maus-tratos aos animais e ao “animalicídio”, conforme está no projeto do PAN, o partido chamado “dos animais” que, ao eleger um deputado nas últimas legislativas, deu a conhecer o sinal dos tempos. O parlamento aprovou projetos, do PS, Bloco e PAN, que fazem equivaler, na prática, a punição por maus-tratos a animais à punição por agressão física a uma pessoa “humana”. Este crime prevê até três anos de prisão, o mesmo que o PAN defende para os maus-tratos a animais. O PS ainda põe, por pouco, as pessoas à frente dos animais - a pena máxima para os agressores dos animais fica nos dois anos, para os agressores de pessoas mantém-se nos três.
Deve existir seguramente um sem-número de explicações ao nível das ciências sociais para o nível de adoração aos animais a que se chegou. Fala-se de uma “evolução social bastante relevante”, como disse o deputado do PSD Carlos Abreu Amorim. É saudável uma sociedade que não tenha como regra a canção infantil “Atirei o pau ao gato/ mas o gato não morreu”, mas daí à transformação dos animais em “quase pessoas”, como sugerem as ideias penais do PS e do Bloco - o PCP ficou de fora - é um absurdo. Este fim de semana, o Papa Francisco veio colocar a questão “en su sitio”: “Quantas vezes vemos pessoas que cuidam de gatos e cães e depois deixam sem ajuda o vizinho que passa fome?” O vizinho e as crianças do Mediterrâneo são hoje muito mais invisíveis que os animais.
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