A destruição de um país

António Barreto
DN 20160522

Ninguém poderá dizer o que será a Venezuela dentro de um par de anos. Tudo pode acontecer. Assiste-se a uma destruição sistemática das instituições de um país e dos seus equilíbrios básicos. Mais de 75% da população vive em estado de pobreza e destituição. O produto nacional reduziu-se mais de 5% no ano passado e vai diminuir 8% em 2016. A inflação está a quase 200% e será de 400% até Dezembro. As organizações internacionais prevêem que atinja os 700% já para o ano.
Os funcionários públicos são obrigados a trabalhar apenas dois dias por semana. Sem medicamentos, os hospitais fecham e os equipamentos degradam-se. As autoridades alteraram a hora legal a fim de não gastar energia. Sem gestão competente, as barragens, entre as quais uma das maiores do mundo, estão secas ou próximas dos níveis de catástrofe. No país que possui uma das grandes reservas de petróleo do mundo, a energia está racionada. Como racionados estão quase todos os produtos alimentares, o que de nada serve, pois a maior parte dos géneros desapareceu dos mercados. As principais fábricas vão fechando por falta de matéria-prima e de energia. Maduro manda fazer manobras militares e ameaça nacionalizar quem não tiver matéria-prima ou energia!
Na rua, sucedem-se as manifestações, as pilhagens, os raptos, as cargas policiais, os espancamentos, os motins de toda a espécie e as investidas da Guarda Bolivariana. Há presos políticos às centenas, ninguém sabe bem quantos. Com o dinheiro do petróleo, enquanto houve, gastou-se tudo, compraram-se amigos, pagaram-se milícias, organizaram-se forças armadas fiéis. E distribuíram-se benefícios sociais. O dinheiro diminuiu, mas não se pense que acabou. Com o petróleo a metade do preço, há muito dinheiro para pagar a amigos e seguidores. Espere-se pois o pior. Ainda não houve bancarrota porque a China decidiu financiar a Venezuela com milhares de milhões de dólares. Em troca de petróleo barato, já se percebeu.
Maduro decretou o estado de emergência por 60 dias e diz que vai acabar com a assembleia nacional. A revolução bolivariana criou uma das mais elevadas criminalidades do mundo. Nos últimos três meses, foram assassinadas 4800 pessoas. No ano passado, 17 700 tiveram a mesma sorte. Na Venezuela, hoje, mata-se mais do que no Afeganistão! As comunidades de origem estrangeira residentes na Venezuela vivem aflições. Mas muitos, há mais de uma geração, não têm sequer para onde ir.
Apesar da pobreza, da desigualdade e dos barrios miseráveis, piores do que favelas, a Venezuela é uma das nações mais ricas da América Latina. Esta sistemática destruição de um país deve--se à demagogia populista, à corrupção e ao desperdício. Segundo Maduro, a crise deve-se à queda dos preços do petróleo, à seca, ao El Niño, a Barack Obama, aos americanos, aos fascistas, ao patronato, à burguesia venezuelana e à Colômbia.
Este desastre venezuelano poderia passar despercebido em Portugal. A Síria, a nossa crise e a da Europa são suficientes. A verdade todavia é que a Venezuela não nos é assim tão estranha. Vivem lá mais de meio milhão de portugueses. Tem havido, desde os anos 70, relações estreitas entre governos. Já houve mesmo, nos anos 1970, ajudas financeiras a partidos portugueses. Sem falar das amizades intensas do presidente Chávez com os governantes portugueses, em particular José Sócrates.
Sejam quais forem os antecedentes, por que razões as esquerdas portuguesas pouco ou nada dizem sobre o despautério venezuelano? Será que o consideram de esquerda e solidário?
E as autoridades? Existe algum programa oficial de acompanhamento? Há planos de assistência? O que acontecerá às comunidades portuguesas da Venezuela? O que está Portugal pronto a fazer para ajudar? Era bom não assobiar para o lado...
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