A revolta contra a globalização

Rui Ramos
Observador 17/5/2016, 2:48

Por debaixo da espuma noticiosa, há uma grande história que une a candidatura de Trump, o Brexit e a anti-austeridade: a da revolta contra a globalização. É isso que define o tempo presente.
Se há um fio que liga coisas tão diferentes como a candidatura de Trump nos EUA, o movimento pelo Brexit no Reino Unido, ou a anti-austeridade de Tsipras na Grécia, é este: a revolta contra a globalização. Para uns, geralmente na extrema-direita, o problema são as migrações; para outros, quase sempre à esquerda, o problema é a mobilidade dos capitais. Para outros ainda, como Trump, o problema é tudo isso, e mais as importações da China. Para todos, enfim, o problema é a circulação entre países — circulação de pessoas, de capitais, de produtos, de ideias – em suma, aquilo a que chamamos “globalização”. É a globalização que está em causa neste momento no Ocidente. É essa, por debaixo da espuma noticiosa, a grande história deste tempo: a globalização vai durar, ou não?
Desde o fim do século XVIII, os primeiros economistas explicaram as vantagens da divisão do trabalho, não só dentro de cada Estado, mas entre os vários Estados. Na Inglaterra, foi à esquerda que surgiram os entusiastas da liberdade de comércio. A Inglaterra estava então sujeita a um regime alfandegário destinado a elevar o preço dos cereais produzidos pelos latifúndios da nobreza: na prática, o sistema funcionava como um imposto a favor da aristocracia. A esquerda dita “liberal” fez campanha pelo comércio livre, como um meio de embaratecer a vida e abater o poder aristocrático. Foi então que surgiu a revista The Economist, que há dois séculos mantém a mesma linha editorial de defesa da liberdade económica: no século XIX, isso situava-a à esquerda; agora, à direita.
O comércio livre incomodou sempre todos aqueles que beneficiam de rendimentos que só são possíveis por favor do poder político. Em 1840, na Inglaterra, eram os grandes latifundiários. Hoje, por todo o Ocidente, são os lóbis e corporações que vivem do Estado e das suas regulamentações. Desde a crise de 2008, o populismo e o radicalismo esforçam-se por nos convencer dos benefícios do proteccionismo: menos migrantes significariam salários mais altos; menos importações chinesas traduzir-se-iam em mais emprego; menos mobilidade de capitais aumentaria a margem de manobra dos governos para adoptarem políticas sem o risco de o dinheiro fugir do país. O que não mostram é o reverso da medalha: menos circulação de capitais causaria também menos investimento externo e provavelmente mais abusos fiscais; menos importação originaria também uma vida mais cara; menos migração diminuiria a força de trabalho numa sociedade a envelhecer.
Sim, a globalização gera inseguranças; sim, a globalização gera desigualdades. Mas o encerramento proteccionista não geraria mais segurança, nem mais igualdade. Teríamos guerras alfandegárias entre países, lutas de lóbis dentro de cada país e desigualdades decididas pelo poder a favor dos grandes interesses (corporativos, empresariais, sindicais ou geracionais). A liberdade comercial, sobretudo a partir da década de 1980, propiciou algumas décadas de crescimento e convergência económica no mundo. Pela primeira vez desde o século XIX, o resto do mundo voltou a produzir mais do que o Ocidente. Agora, a concorrência no “mercado mundial” exige às sociedades ocidentais mais adaptação e mais flexibilidade. Mas não está em causa apenas o regime comercial. Hoje, é difícil imaginar uma democracia liberal sem a abertura e a cooperação internacional que caracteriza a globalização. Um encerramento protecionista não exigiria apenas mais guardas fronteiriços. Pressuporia também o ambiente de demagogia xenófoba que desse a toda a gente uma razão para abominar migrantes e importações. Na década de 1930, o proteccionismo acompanhou o autoritarismo. Desta vez, não seria diferente.
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