Ainda sobre o novo líder trabalhista britânico

JOÃO CARLOS ESPADA Público | 21/09/2015

A dissonância entre eleitores e activistas já terá ocorrido nas eleições de Maio, que os trabalhistas perderam. Terminou ontem o encontro anual de antigos alunos da Universidade de Oxford, também conhecido por Oxford Alumni Weekend. Dezenas de eventos, palestras, visitas guiadas, almoços e jantares ocorreram de sexta a domingo, um pouco por toda a cidade e em inúmeros colégios. Mas, como aliás se tornou costume, nem todos os Colégios aderiram, uma vez que se trata de uma “iniciativa central” da Universidade. Em Oxford, o termo “central” continua a ser visto com reserva.
E não houve propriamente um tema central no programa do fim de semana. Meeting Minds é o subtítulo clássico do evento e o máximo candidato a tema “central”. No entanto, havia um tema “central” na maior parte das conversas informais entre os participantes: a recente eleição de Jeremy Corbyn para líder do Partido Trabalhista.
O assunto era abordado com tonalidades diversas: com bastante inquietação, entre os progressistas do centro-esquerda; com alguma satisfação, entre os conservadores. Mas, entre todos, parecia existir uma comum e indisfarçável curiosidade antropológica: que tribo peculiar iria escolher como líder um candidato com um programa inelegível pelo país?
A pergunta tem o mérito inegável de distinguir entre os membros do partido e os eleitores em geral. Essa distinção é crucial em qualquer regime democrático fundado na liberdade de escolha. Ela reconhece que os partidos não comandam os eleitores, mesmo os seus eleitores mais fiéis.
Esse é o ponto de partida da reflexão estratégica sobre o futuro do trabalhismo britânico desencadeada por Jon Cruddas, ex-conselheiro do anterior líder do partido, Ed Miliband – que foi derrotado nas eleições parlamentares de Maio passado. Falando à revista Spectator, Cruddas observou que essa dissonância entre eleitores e militantes já ocorrera na eleição de Maio: Ed Miliband estava à esquerda dos eleitores, mesmo de boa parte dos eleitores trabalhistas.
Jon Cruddas distinguiu três sectores no eleitorado trabalhista: um sector mais radical, basicamente metropolitano, afluente e associado aos media e ao ensino estatal; um sector intermédio, pragmático, algo indefinido; finalmente, um mais vasto sector popular, tradicionalmente trabalhista, mais preocupado com as suas condições de vida e com a segurança nacional.
Um ponto curioso da análise de Cruddas é que o sector mais radical é mais afluente e menos numeroso. Por outro lado, o sector mais numeroso é menos radical e menos afluente. Para este último grupo, usualmente designado por “classes trabalhadoras”, a campanha anti-austeridade escolhida por Ed Miliband nas eleições de Maio era vista com cepticismo. Habituados a fazer contas domésticas, eles provavelmente desconfiavam que uma política de aumento da despesa estatal só poderia ser financiada pelo aumento dos seus impostos.
Por outro lado, tendo de trabalhar arduamente para melhorar a sua condição, não olham com bons olhos as promessas trabalhistas de aumentar a torto e a direito as prestações sociais. Este é outro ponto curioso da dissonância entre o eleitorado trabalhista clássico e os activistas mais radicais. Para os sectores tradicionais do trabalhismo britânico, os apoios sociais não devem desincentivar o trabalho e a ética do trabalho. Em contrapartida, são os sectores mais afluentes que reclamam mais subsídios estatais – para as artes e a educação, em primeiro lugar, mas também para prestações sociais que os trabalhadores vêem com alguma reserva.
Esta dissonância tem levado vários analistas a preconizar uma suave deslocação para a esquerda do Partido Conservador. Essa proposta parece razoável: se a liderança trabalhista se deslocou para a esquerda, deixando órfão um eleitorado do centro-esquerda, então os conservadores podem atrair parte desse eleitorado se eles próprios se deslocarem para o centro-esquerda.
Pessoalmente, vejo esta linguagem geométrica com algum cepticismo. Esquerda e direita são conceitos pertinentes, mas não esgotam a realidade política. Margaret Thatcher e Ronald Reagan obtiveram largo apoio popular à esquerda e entre as “classes trabalhadoras”, embora não seja óbvio que se tenham deslocado para a esquerda. A principal missão de um partido que aspira a governar em democracia não é “conquistar” eleitores à esquerda ou à direita. É dirigir-se às pessoas comuns e aos seus problemas comuns, com argumentos credíveis.
Talvez tenha sido este, em última análise, o problema central de Ed Miliband que agora foi agravado por Jeremy Corbyn. Em vez ouvirem e falarem para as pessoas comuns, deram demasiado crédito aos analistas, comentadores e activistas.
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